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terça-feira, julho 30, 2013

Sobre o abandono



Frequenta o abandono quem vive um quase namoro, fantasia reciprocidade, aceita abraço frouxo, conversa sem olho no olho, ausência de carícia.

Frequenta o abandono quem chama a rejeição de saudade, implora por qualquer fiapo de atenção, enfeita sua própria desvantagem. 

Frequenta o abandono quem vê na recusa uma possibilidade de mudança ignorando os sinais óbvios da distância.

Frequenta o abandono quem não reconhece que ser bem tratada não é um mérito, mas uma condição e segue chamando migalhas de banquete.

Frequenta o abandono com assiduidade quem se contenta com tão pouco que o Outro para mantê-la descobre que pode dar cada vez menos.

Frequenta o abandono quem não está disponível pra viver um romance porque namora um drama.

Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 29, 2013

Mantra




Eu me torno emocionalmente saudável quando consigo desconstruir todas as tolices sobre amores salva-vidas e jogar a ideia surreal do príncipe encantado no lixo. Eu me torno emocionalmente saudável quando acredito que namorar deve ser leve mesmo quando intenso, e divertido mesmo quando há um sério comprometimento. Eu me torno emocionalmente saudável quando o que me ocupa é a minha vida e não a reação que tenho ao comportamento alheio. Eu me torno emocionalmente saudável quando percebo que determinada história não me abrange, me deixa inadequada, fere a minha autoestima e sinto que isto é o suficiente para eu tentar ser feliz e me abrir para outras possibilidades. Eu me torno emocionalmente saudável quando escolho os meus parceiros pelo que me agregam de luz e crescimento, não pelo desafio que me trazem quando se mostram emocionalmente indisponíveis ou abertos para viverem outras relações que não a nossa. Eu me torno emocionalmente saudável quando me permito ficar sozinha até atrair um alguém que esteja disposto a trocar, desbravar paisagens juntos, que esteja inteiro no lugar que escolheu. Eu me torno emocionalmente saudável quando, estar ou não estar com alguém sexo-afetivamente, não se torna a prioridade da minha vida, mas somente um dos meus desejos. Eu me torno emocionalmente saudável quando aprendo a dar nome aos meus sentimentos: e não confundo posse com excitação, dependência com paixão, rejeição com confusão alheia... 


Eu me torno emocionalmente saudável quando dou amor, não carência.

Livrai-me do que desbota a minha lucidez e da alienação de achar que a felicidade está no Outro e não em mim. Que seja assim.

Marla de Queiroz

terça-feira, julho 09, 2013

Plural



Não me compreendem. Principalmente ele: “Como pode um ser tão singular interessar-se sempre pelos plurais?”, pergunta. Mas tenho me sentido em paz. Não sofro por amor, apenas sinto. As saudades não me machucam. Traições são irrelevantes, prezo pela lealdade. Desinteressam-me as relações convencionais. Minhas paixões continuam extremadas e temperando meu comportamento, mas tenho experienciado solitariamente meus estados. Temo fazer mal ao Outro com minhas hipérboles e, ao mesmo tempo, sei quão meu é todo este processo.

R. me acha paradoxalmente sensível, mas desalmada. Explico que procuro dar aquilo que preciso, não o que querem de mim. E desejam minha alma, mas eu só entrego o meu corpo: minha alma é propriedade da minha escrita. As palavras me governam, não há como libertar-me disto: meu inferno particular guarda este aconchego.

Ontem, chorei antes de dormir. Chorei por falta de qualquer emoção, o peito estava vazio e a conformidade me entristeceu. Hoje, apesar de todas as nuvens cor de chumbo, acordei leve, esfuziante e seduzível. Mas lembro que R. nunca vai me perdoar por não ter sido ele. Por não ter tido o tempo que precisava. Por não ter causado qualquer sensação que me tirasse da zona de conforto. Por não ter estado dentro do meu corpo nem ter arrancado qualquer suspiro de paixão. R. nunca saberá o meu sabor além da sua imaginação.

Respiro fundo olhando pela vidraça o vento alvoroçado. Percebo a crosta de poeira sobre meus livros, revisito alguns capítulos, penso num ensaio de fotos absolutamente original, prendo-me nas imagens e me divirto infantilmente com as cenas. Todos os telefones estão tocando. Não os atendo, estou ausente do mundo de fora agora. B. deve estar chegando, tem a chave de casa. Quero arrebatá-lo de prazer, fazer amor com alarde.

(R., me perdoa por eu não precisar do teu perdão. Você chegou tarde).


Marla de Queiroz 

sábado, julho 06, 2013

SUPERAÇÃO



Trago no corpo
Cicatrizes subcutâneas.
Trago no olhar
Uma tristeza subterrânea
Que o meu sorriso
Se empenhou
Em aniquilar.

Eu nunca fui vítima de nada
Mesmo quando me afoguei
Por não saber nadar.
Eu escolhi o mergulho
E corri o risco
De vivenciar minhas emoções
Em alto mar.

Trago na alma
Alegrias decorrentes
De uma parca memória.
Tenho um passado pesado
Mas reescrevi minha história.

Trago no peito
Apenas amor, gratidão.
A vida me ensinou
Que sobreviver à derrota
É uma grande vitória:
Superação.


Marla de Queiroz