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quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Paisagem noturna

 
Como as folhas outonais que se suicidam das árvores, estrelas despencam do céu, evidenciadas, desafiando luzes artificiais. Meus olhos veem, minha retina as acolhe, meu cansaço as abraça. O dia farto de calor imenso, mas a brisa fresca chega feito um beijo. Tudo se norteia suave e o coração vai desacelerando, guardando as emoções primatas para o refinamento do desconhecido amanhã. Tudo pede para amanhecer, mas nada é garantia. Sei que hoje estou feliz e calmamente previsível: vou dormir, é fato. Sei destes próximos minutos. Mas ignoro o dia seguinte e isto me instiga. Tudo é novidade e página em branco, somente as palavras anseiam a dança dos dedos e o pensamento ativo. Por enquanto, escuto o oceano Atlântico com suas águas “uterúnicas”, ventre materno para mergulhos e satisfação da criança interior que ainda quer brincar. Talvez amanhã, as ondas rebentem fortemente, talvez apenas dancem delicadas e convidativas.
E, agora, tudo mora neste talvez.

Marla de Queiroz

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Sem afeto


Os meus pés estão descalços, minhas mãos estão vazias. Trago o peito entulhado de sentimentos sem adjetivos possíveis. Um coração desestabilizado, terrível. A tarde rasga a pele do tempo e o sol desaba sua claridade em meus olhos. Choro. Meus cabelos estão desgrenhados, meus lábios ressecados pela avidez daquele beijo. Flutuo atravessando muros abstratos, fotografias abandonadas por seus porta-retratos e cadernos sem caligrafias. Transito em transe por ruas desabitadas, por pontes que não promovem encontros. Sou amada por algumas pessoas insípidas que precisam me enfiar em alguma gaveta vazia. Os abrigos me abismam. Hoje estou dura, crua, fria. Hoje estou maldosamente agressiva. Impulsionada a causar feridas, mas não conseguindo exercer com destreza o lado mau que há em mim. Magoei de maneira estabanada, não ganhei absolutamente nada, me dói tudo por dentro, me arrependo, e levo meses para me perdoar pela ferida que abri e que deixei ardendo. Meu lirismo fugiu de mim, larguei ao relento. E eu me sinto deslocada, pois me desabituei a ser assim, a estar assim. Mas quero desaçucarar minha imagem, borrar o rímel da paisagem, derrubar minhas lágrimas presas, tirar a maquiagem das certezas.
E isto é só o começo... ou o fim.

Marla de Queiroz