Páginas

domingo, janeiro 27, 2013

FUGA





Já não consigo voltar. Tudo mudou comigo. Os seios apontam adiante, minha única direção agora. Mas algo, arraigado, não mudou: abandonar por medo de ser abandonada. Não suportando a menor ameaça, às vezes irreal, fujo desesperadamente, fujo com toda a pressa que o medo pode embutir numa pessoa, fujo com a força de alguém que tem atrás de si um leão faminto. Não suporto mais ser este prato cheio para Freud. Isto me faz viver com emergências demais, com sobressaltos angustiantes. Mas não consigo ficar, meu amor. Mesmo que eu volte, preciso ir para respirar fora do medo e me sentir a (falsa) heroína que escapou do perigo. Tudo sempre tão ameaçador o tempo todo. Alguns sentimentos puídos pelo tempo, outros recém-nascidos. O mar me abandona às vezes também e eu me abraço a esta poeira de chuva. O vento roça meu pescoço, o frio se aninha na espinha. Meus olhos estão cansados de tanto mundo. É preciso muito esforço para mirar o horizonte inteiro. É preciso muita imensidão e força no olhar para ver e enxergar holisticamente.
Mas estou cega.

Marla de Queiroz

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Até logo!




Não dormi. B. assaltou meu corpo por toda a noite e madrugada, teve pesadelos em que eu ia embora e chorou copiosamente. Parece pressentir. Não posso ficar aqui, vamos nos consumir absolutamente. Sinto falta do amor sereno de M. que me chama de “alegre menina” enquanto afaga meus cabelos. M. não me devora, mas degusta, aprecia. B. é meu predileto, mas se funde a mim, parece querer que o mundo se acabe em meu ventre.

Hoje não vai chover. Sinto falta de ver o mundo apressado, pessoas correndo: uma para cada lado. Sinto falta de deitar na grama e respirar profundamente o céu. Mas B. acha que nossa vida pode se resumir nesta cama. Eu o amo, mas não o quero mais agora. Vou procurar M. que me espera calmamente. Ou seguir sozinha.

Fulano ainda me procura pela cidade. Um pobre coitado que seduz mulheres ingênuas para me vigiar e dar-lhe informações sobre minha vida amorosa. Não me importa, aliás, nada que venha dele me interessa. Sinto pena de sua imensa escravidão: vive a minha vida enquanto poderia fazer algo por si mesmo. Um pobre coitado, estabanado que jamais terá a minha admiração.

Meu Deus, como sou volúvel! Embora eu receba os meus homens com meu coração sempre despreparado e vivencie o amor, de qualquer espécie, com inocência e candura, ainda assim, sinto-me inquieta, sinto falta de mim. Mas acolho tudo que me acaricia. Agora preciso escrever sobre o que vejo, sobre a imensidão. E entre quatro paredes há tanto tempo, só consigo sentir o cheiro do sexo e da exaustão.

Não tenho malas para arrumar. Vou deixar minhas peças íntimas espalhadas como estão. Vou deixar que o meu rastro adorne este chão. Só preciso abrir a porta e sair. E é o que farei enquanto B. dorme cansado por ter estado dentro de mim madrugada à fora.

Beijo sua testa com todo o amor do mundo e saio. Nenhuma lágrima. Nenhuma culpa. Ele sabe que fui criada para a liberdade mesmo que ela signifique esta gaiola de buscas e esperas. Mas minhas mudanças sempre foram bruscas. Até logo Meu Senhor, Meu Grande Amor. 

Desejo apenas que você me queira bem.

Marla de Queiroz

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Carta para L.



 
Querida, 

Perdoe a falta de notícias. Fulano está magoado e ferido, não aceita de forma alguma a rejeição mesmo sabendo que durante todo este tempo nutriu falsas esperanças, posto que nunca houve nada entre nós, sequer carinho da minha parte. Agora está obcecado à minha procura, contratou uma espiã para vigiar meus passos pela cidade. Sinto um verdadeiro asco por ele e B. apenas ri, ri descontroladamente de sua estupidez inofensiva e infantil. Quando descobrimos tudo, gargalhamos até chorar e, qual duas crianças, fingimos estar escondidos feito amantes clandestinos. Eu e B. estamos há dias enclausurados dentro de um quarto de hotel. Mal nos alimentamos, o amor de B. tem uma fome voraz e devora meu corpo, minha alma e o meu coração. Estou absolutamente entregue a ele. Tirana ou submissa exploramos todas as formas do desejo. Nunca nos amamos com tamanha intensidade. Sim, estou escondida nos braços da sedução, do prazer e da luxúria. Sinto um apetite interminável por B., estamos nos consumindo até o osso dos sentimentos. Parece que chegaremos ao gozo absoluto: aquele que nos levará à morte, mas sempre renascemos após cada coito, prolongando eternamente nossas carícias. Não temos pressa de nos reinserirmos neste “vasto mundo”, podemos ficar aqui para sempre escrevendo e fazendo amor como dois adolescentes: entre beijos ardentes e gargalhadas pueris.
Sim, querida. Entendo que você sempre me aconselhou a tentar conduzir minha vida de maneira mais serena. Tentei por alguns momentos viver mais delicadamente, mas fui promovida a viver paixões vorazes como esta. Desperto amores furiosos e sou seduzida por paixões avassaladoras. Às vezes, quando tanta vida vivida me suga, danço desvairadamente, descalça e nua, corro para a floresta, entrego-me às árvores, torno-me novamente um sabiá-laranjeira. Descanso. Morro um pouco. E recomeço.
Preciso ir, escrevo depois. Os dedos de B. já estão inquietos...
Com amor,

Marla de Queiroz

sábado, janeiro 12, 2013

Despedida





Recolhemos nossas flores secas da janela antes de fechá-las. Nossos sentimentos embrulhamos em jornais velhos e guardamos dentro de caixas de papelão. O caminhão de mudança levava embora a rotina que tivemos juntos. Objetos que davam identidade a nossa relação. Uma casa montada com afeto e com aquela sensação de eternidade, esvaziada de tudo, de tanto. Você me ofereceu uma carona até o aeroporto, mas preferi ser amparada por um taxista qualquer, um desconhecido que não falasse em corações partidos ou separações doloridas, mas no clima abafado, no prenúncio de chuva, nas nuvens que cobriam o céu por todos os lados. Quis tanto conseguir chorar quando tocou “cry me a river” no rádio, mas eu estava tão ressecada por dentro. Quis tanto que a corrida demorasse para que eu olhasse, talvez pela última vez, a cidade pela janela, amada por todos aqueles anos. Quis que o voo não atrasasse, que as malas extraviassem, que eu pudesse recomeçar minha vida só com a roupa do corpo. Só com meu livro de bolso e meu batom cor de sangue.
Dentro do avião, tive vertigens de pássaro que tenta alçar voo com sua asa partida. Tudo no meu canto era fragilidade e despedida. Ir embora para poder voltar para mim: foi minha única saída.

Marla de Queiroz