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terça-feira, agosto 21, 2012

Apenas algumas divagações




O corretor do word nunca aceita a minha construção de frases e tenta me convencer de que tenho uma maneira errada de dizer as coisas. Brigamos constantemente porque sei que ele não entende muito de licenças poéticas. Mas me incomoda o sublinhado embaixo de fases inteiras. Por que não posso escrever no contrafluxo dos sentimentos?
O corretor de imóveis nunca entende ou encontra o tamanho do lugar em que eu consigo caber. Eu não posso abandonar meus livros e abrir mão de acordar com a luz do dia. Eu só durmo em paz na minha cama box e preciso de um guarda-roupas grande. Por que não posso querer as coisas do tamanho que eu acho devam me acolher?
O corretor de confusões mentais leia-se terapeuta, nunca conseguiu me convencer de que eu precisava me desvencilhar do caos. É dentro dele que eu encontro força para me equilibrar. É dentro desta desorganização absoluta que eu consigo encontrar o ineditismo da criação. Por que não posso ser diagnosticada como autêntica, em vez de complicada?
O corretor de rasuras, “liquid paper”, nunca me pareceu útil. Gosto das palavras riscadas como um “ato falho”, o dito que não pretendia dizer nada... Por que não se pode desabotoar num texto aquilo que não se pretendia explícito?
Sempre achei que o papel da poesia era apenas desencadear emoções ou socorrê-las. Nunca corrigi-las. Mas fico relendo o que escrevi nas minhas narrativas e procurando equilíbrio no meu jorro de palavras. Como domar a escrita instintiva, intuitiva?
O moço que me amava e não era correspondido, dizia que tenho medo de amar. Expliquei que não era medo, mas desinteresse. Por que algumas pessoas não conseguem escutar exatamente o que foi dito pra tentar corrigir nossa recusa catando ilusões nas entrelinhas?
Por que essa tentativa de resgatar o que já nasceu desperdiçado?

Marla de Queiroz

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domingo, agosto 19, 2012

RECUSA


“Tudo que eu queria era estar dentro de você agora, neste domingo, às 07h da manhã”, me diz ao telefone. Respondo com voz sonolenta e um tanto sarcástica: “veja como a vida é irônica: estou a 16 km do seu desejo e a 100 anos-luz da minha vontade de satisfazê-lo... O amor da minha vida está a 1.873 formas que inventei de dizer EU TE AMO e, neste momento, deve estar dormindo com outra. Seria maravilhoso se só quiséssemos o inevitável, não?”.  Sei que meus comentários o aborrecem, mas o seu desejo o emburrece, e mesmo sendo inteligente, não aceita minhas recusas nem quando elas são feitas com todas as normas da Nova Reforma Ortográfica.

Desligo, tento voltar a dormir. Tarde demais, o dia anuncia muito sol, pretendo praia, desisto, escolho um filme, assisto, mas ainda é muito cedo para ser tarde demais. Algumas lembranças começam a perturbar, eu não precisava lembrar o amor-da-minha-vida-com-outra para ser cruel com o Outro. Repenso o que eu disse: “seria muito bom se só quiséssemos o inevitável, não o impossível”. Seria.

Marla de Queiroz

quinta-feira, agosto 16, 2012

SEXO E AMIZADE



Era desconcertante, mas me excitava a forma como me ele olhava: era um misto de quem procura poesia na poeta e espera algo mais misterioso na mulher que se despe a sua frente. Mas eu sou falante, risonha e brinco demais na maior parte do tempo. Ele ria, alcançava o raciocínio dos meus comentários e rebatia lindamente. Apenas parecia não esperar que eu me despisse com tanta praticidade sem fazer muitos rodeios, pois eu sabia que faríamos sexo, tinha ido visitá-lo para isto. Claro que a poeta também estava em ação, não resisto: sempre acabo sussurrando alguma coisa erótica nos ouvidos, durante o ato ou enquanto me prolongo nas carícias. 

Ele era interessante, interessado. Mas não seria nada além de um parágrafo na minha “autobiografia não autorizada”. Não era uma questão de quem estava “usando” quem, seria só uma noite de sexo para mim, talvez para ele também. Sexo com alguém excitante e viril, inteligente, atencioso, mas que parecia mitificar demais a poeta que escreveu o livro. Leu a minha flor de dentro mais explícita, mas esta não tinha sido inspirada nele.

As coisas se sucederam como se sucedem as noites de sexo bom. Apenas isto. E eu continuei ilesa, mas com mais uma lembrança bonita. Não é frieza, não é desacato ao romantismo ou falta de lirismo, é só uma forma lúcida de expor a realidade: “sexo e amizade, topa?”

E eu poderia ter me apaixonado, assim como ele: nunca saberemos. Mas o fato de ter sido muito bom não foi o suficiente. Talvez eu me apaixonasse mesmo que não tivesse sido. (Eu me apaixono pela pessoa antes do sexo, eu me apaixono por um detalhe anticonvencional, às vezes pelos defeitos ou pelo aspecto considerado mais banal).

De qualquer forma, ele não me telefonou no dia seguinte, e eu já sabia: não dei a ele meu contato... Foi apenas mais um romance desses que são eternos... durante um dia, durante o ato.

Marla de Queiroz


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segunda-feira, agosto 06, 2012

Inadequação



Percebi que, na maioria das vezes em que sofro, é por causa de uma sensação de inadequação. É como se eu não conseguisse cuidar direito da minha vida, do meu mundo, da minha rotina, de mim mesma. E passo o dia esperando que chova ou faça sol porque pode ser “culpa” do cenário que não está combinando com o meu estado de espírito naquele momento. Tolice... Logo amanhece e fica tão claro que o Universo não tem absolutamente razão ou possibilidade alguma de se adequar a mim. Eu tenho que me adequar às mudanças constantes_ enormes, bruscas ou sutis e pequenas_ mas sempre relevantes, contínuas.
Hoje eu acordei mais adequada, excentricamente adequada. E passei o dia me divertindo com a minha exuberância emocional. E leve, leve, porque tudo é tão breve. E o dia acabou, e no sábado fez sol, e no domingo choveu e a segunda-feira, para muitos, foi mais um dia preguiçoso, e para mim, uma semana em branco começando. Tudo tão irresistível, dias versáteis com calor e frio e a possibilidade de mudar de figurino para me adequar ao cenário.
Hoje eu senti muito amor pelas coisas, pelas pessoas. E senti saudades sem apegos, eu estava inteira no meu dia. Percebi que sofro, quando me doo em fragmentos, desalinhada, em conta-gotas. Quando não existe entrega no que faço, uma parte de mim fica em algum lugar desconhecido e eu perco muito tempo em busca dessa parte. Quando eu me desconecto da fé e da confiança na vida, eu sinto medo de existir. Por isso, quando sofro, eu me investigo. Porque o sofrimento, definitivamente, sente-se inadequado em quem aprendeu a gargalhar com o corpo todo.

Marla de Queiroz 

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