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sábado, abril 28, 2012

Sobre Vazios


Na foto: Eu mesma! rsrsrsrs

Passei muito tempo tentando “suprir meus vazios” até descobrir que o que apertava o meu peito era a quantidade de entulhos emocionais que eu carregava. Eu precisava era do vazio para me sentir internamente arejada e com bastante espaço para crescer. A angústia não é um vazio, é uma corrente que se arrasta. O vazio é uma possibilidade, uma lacuna a ser preenchida, um espaço para uma decoração nova. Precisamos de páginas em branco para que nasçam poemas, de recipientes disponíveis, de um coração espaçoso, de uma alma livre, de uma mente aberta. O vazio só existe para os desapegados, para os que suportam e celebram o silêncio que possibilita-nos ouvir os sussurros da intuição e não os gritos infantis dos desejos imediatos. O vazio é uma esperança maciça. Ele não é apenas a falta que nos move e motiva, mas a lembrança mais genuína de que somos seres inacabados e que precisamos nos construir diariamente, incansável e eternamente. O vazio não é um abandono de si, é um reconhecimento do eu, um convite para o Outro, algo que deve ser preenchido temporariamente, dentro do mesmo movimento humano de acordar sempre um desconhecido. O vazio é uma curiosidade que ainda não foi desvendada. É ter braços livres para o abraço que acabará daqui a pouco, mas que ecoará constantemente na lembrança mais bonita. Porque no toque intenso, o afeto estava leve.
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Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 18, 2012

Reflexões sobre “algumas amizades”



Foto: desconheço o autor

Há tempos minha vida deu uma guinada após um longo processo de depressão e exílio voluntário. Estive muito fragilizada e, inicialmente, fui amplamente acolhida por “alguns amigos”. Como a minha situação emocional se agravava cada vez mais, eles foram se afastando e, naquele momento, o contato com as pessoas também parecia não me apetecer mais, pois, provavelmente, eu não estava sendo uma boa companhia: queria viver o meu fundo de poço, sozinha. O que aconteceu, é que depois de muito sofrimento, enjoei daquela dor e daquele abandono de mim mesma_ resolvi reagir e procurar ajuda_ espiritual, profissional e etc. E, da mesma forma que me entreguei àquela situação deplorável e me permiti vivenciá-la até a total vontade de desistência da vida, renasci INTENSA e INTEIRA, com uma disposição absoluta para ser feliz.
Tem sido assim desde então. Não há um dia sequer que eu não faça algo que me permita gargalhar por um bocado de tempo. Não há um minuto em que eu não entre em contato com a minha essência, que é de alegria. Não há momento algum em que eu não me permita brincar para aprender a ser leve, ou pelo menos, estar leve! E resgatar essa minha sede de vida me encheu de uma gratidão profunda e me fez olhar para as minhas conquistas e não apenas para os meus desamparos.
Por muito tempo me deixei ser acompanhada pela angústia e me abracei a ela. Nesta fase, meus “alguns amigos” se sentiam “úteis” porque estavam “superiores” quando “cuidavam” de mim. Mas o que eu não sabia é que insuportável seria minha ascensão, minha alegria. Se antes eles estavam disponíveis, hoje eles apenas sentem saudade. Se antes eles eram o meu bálsamo, hoje eles são uma lembrança bonita. Se antes eram presença, hoje são mais um avatar no facebook que não têm tempo para um encontro real... É por isso que me pergunto: e se não houver o amanhã? Todos andam muito conectados, mas absurdamente indisponíveis... E falam do amor de uma maneira incrível, mas não conseguiram transcender à palavra a ponto dela se tornar uma verdadeira experiência.
Refletindo sobre tais situações, percebo que por determinado tempo, é preciso que exerçamos o amor e a gratidão pelo amparo que nos foi dado no momento mais difícil e que tentemos compreender por que, consciente ou inconscientemente, o Outro ficou tão desconfortável por eu ter me tornado uma pessoa saudável, viável, produtiva. Mas é preciso também, após o tempo dado para que o Outro se resolva, dar-se o mesmo para refletir: como me sinto em relação às atitudes dele?E é isso que tem me importado.
Sei que amar o Outro abrange uma dimensão muito mais complexa do que apenas compreender as idiossincrasias, mas amar-se abrange também um universo muito maior que aceitar que o outro só ame o que há de mais frágil em você... E, se eu gosto de conviver com a força que habita em mim, a escolha desta alternativa faz com que eu prefira que o Outro se afaste ao meu autoabandono novamente. 
Não é fácil, mas eu tive que aprender a tornar isto simples.

Marla de Queiroz