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segunda-feira, março 19, 2012

Outra Música



E muito tempo se passou durante as horas vagas... E a música que eu escutava repetidas vezes, tive que substituir por novas vozes. Pois se é novo o momento, para que lembrar o ido, o frouxo, o genérico, o amor antigo,as coisas que foram levadas pelo vento? Eu que quero coisas de verdade, que sinto as coisas de verdade e busco histórias tão mais reais e me retiro dos platonismos com toda a falta de elegância que me foi ensinada. E não sei representar nem quando subo no palco, com os pés descalços, com a alma nua, declamando poesias que dizem o quanto eu gostei de ter sido tua. Mas agora sou minha, sou de vocês, sou do mundo outra vez.
E muito tempo se passou e durante instantes eu estive mais vaga que as horas todas. E cuidei dos vazios, e busquei os vazios inteiros, mergulhei fundo nos abismos, e achei que estar lá no fundo das coisas é tão bom quanto respirar na superfície. E das pessoas eu vi as sombras para proferir a luz, que é do mesmo tamanho. E das carícias eu recebi apenas as que tinham calor, pois este penetra a pele do poema que é a palavra.
E hoje, até posso olhar para trás, pois não sei andar de costas. Mas o passado, já dizia aquela música que escutei repetidas vezes, é uma roupa que não me serve mais.
*
Marla de Queiroz

3 comentários:

Júlia Brum disse...

Lindo, simplesmente! "E não sei representar nem quando subo no palco, com os pés descalços, com a alma nua, declamando poesias que dizem o quanto eu gostei de ter sido tua." verdadeiro, fundo, de uma nudez e exposição que é admirável e posso dizer até invejável, no bom sentido. beijos

uma quase Leonardo disse...

Achei tão lindo esse trecho:
"Mas agora sou minha, sou de vocês, sou do mundo outra vez."

Eu achei lindo, mas não me identifico agora... Ainda sou de alguém. Muito!

Mesmo não estando, presente..

Que lindo! "E hoje, até posso olhar para trás, pois não sei andar de costas."

A roupa minha está sendo reciclada, basta saber se ainda me cabe... se ela ainda me quer.. depois da reforma... é esperar.

Juliêta Barbosa disse...

O passado é um tempo suspenso onde as nossas saudades esquecidas fazem morada, mas o presente é vida e, vida é tecida em fios de esperança e corre como o leito de um rio... Sempre presente!

Portanto, dispa-se da roupa velha, das suas saudades esquecidas e faça da sua nudez um templo, para que as pessoas só andem por ela, de pés descalços. Ouça outra música, você merece! Mas que ela lhe chegue aos ouvidos com suavidade, só assim passado e presente se reencontraram para zerar suas pendências.

Obrigada, por partilhar suas palavras e sentimentos com tanta generosidade. Bjs