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quarta-feira, janeiro 11, 2012

Sob o sol de São Paulo


Eu vejo a cidade com outros olhos agora: não reconheço nada, eu vejo com olhos que veem como se fosse a primeira vez, com o mesmo espanto primordial de uma criança que descobre o mundo. Eu, quando me ofereci para visitá-lo, talvez quisesse reparar aquele abraço que nunca te envolveu completamente. E você, finalmente, pôde tomar conta dos meus pesadelos. E impediu que me fizessem mal naquela hora em que me apertou forte durante os meus espasmos_ eu tão assustada naquela caverna triste, úmida e escura, acordei num abraço quente, naquela cama macia. (Foi quando tive a certeza de que sou a minha bagagem e de que ela é metafísica, independente da geografia).
Quando tirei aquelas fotos, saturei as cores do nosso amor opaco, mas nada estava insuficiente. Embora eu sempre fosse seduzida pelo que há de mais fosforescente... Mas pude brincar nos faróis fechados e adentrar todas as portas que você abriu para mim. E achei tão bonito que alguém pudesse morar na Rua Simpatia, esquina com a Harmonia: quanta delicadeza guardada num endereço.
Quem sabe eu possa congelar nossa alegria, um dia, num porta-retrato. E você vai me reconhecer mergulhada no azul piscina com o biquíni azul e a aura ensolarada.
E mais uma vez, eu estava com as minhas malas prontas e fechadas. E você se despediu por longos quinze minutos e eu consegui dormir durante breves seis horas.
Quando voltei para a minha rotina corrida, nada mais incomodava. A cidade estava sonolenta, a casa aquecida, os móveis intactos, as ruas varridas e poucos amigos para partilhar_ aprendi que devo ter os meus segredos. Mas a sacola de livros aumentou de peso e as histórias que me interessavam mudaram de tom. (Lembro que você me disse que das músicas que ouvimos, eu presto atenção nas letras e você no som).
Mas eu queria te contar, se é que você já não sabe, que as minhas certezas sobre nós dois não mudaram, estão na mesma gaveta, talvez guardadas num vídeo-poesia, na sua taquicardia, na minha hora do chá, nas tardes de nostalgia, nos sentimentos que ficaram estagnados nos meus parágrafos sem lugar. E que hoje eu amanheci mais bonita e caminhei debaixo do dia líquido, sem guarda-chuva, quase descalça, leve, disposta, sem procurar respostas. E quando eu leio que Henry Miller fez tanto a Anais Nin sofrer, gosto de não querer mais, por enquanto, o que é arrebatador.
Perdoa eu ter escrito tanto sobre o meu novo olhar sobre a cidade e outras coisas diversas, eu sei que você esperava que eu falasse mais de amor.
*
*
Marla de Queiroz

11 comentários:

Yohana Sanfer disse...

Acompanho sempre mas pouco comento. Essa pouca frequência mão é proporcional a minha admiração por tua escrita linda, mas hoje quis comentar. Quero registrar meu olhar e encanto por este texto tão bonito, de toque intimista e revelador.
Marla, você está entre as minhas favoritas!
Um beijo!

placco araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
placco araujo disse...

Você sempre me emocionando, moça da blusa cor de rosa!!! Mesmo que agora tenha se vestido de outras cores e tons, seu domínio sobre as palavras fazem a mais trivial das atividades, parecer uma festa! E acredito que você faça delas realmente uma festa, pois alguém que se emociona e se encanta com a beleza encontrada no cruzamento de duas ruas só pelo que o nome delas sugere, é alguém capaz de fazer "especial" cada momento vivido. Obrigado por partilhar conosco segredos tão seus, mas que a partir de agora são nossos, os pelo menos 1486 seguidores!
Beijos ternos

JasonJr. disse...

Belas ruas! :D :D :D

Gecildo Queiroz disse...

"Amanheci mais bonita
e caminhei debaixo do dia líquido, sem guarda-chuva, quase descalça, leve, disposta, sem procurar respostas". Trecho belíssimo, texto de uma sutileza admirável.

www.valedoverbo.blogspot.com

Segunda Pele disse...

Nossa! Quanto tempo eu não vinha até aqui!!!!!!!!!!!

AquilesMarchel disse...

reverencias minhas as suas palavras e ainda com o nome de minah cidade paixão

Drika disse...

Lindo texto =)

Abraços...

Laércio Neto disse...

E incrivel como ler o que voce escreve aminiza a dor que chega eccoando indisposicao para todos os cantos de mim... que chega roubando todas as atividades que tinha decidido fazer.. voce tem um coracao, e muitas, diversas, grandes tipos de sentimentos. A marla e mar que uma muie ! p.s. mar= mais, e viva ao regionalismo, rs.

Anônimo disse...

Eu te mostraria uma outra cidade, poetinha. Não tanto glamour, mas mais divertida. Beijos

Anônimo disse...

P.S. Não tenha conta google, mas você sabe quem eu sou, não é poetinha?