Páginas

segunda-feira, novembro 14, 2011

Sobre as adversidades


Muito fácil proferir um lindo discurso sobre fé e confiança na vida, difícil é entregar ao Poder Superior seus passos e colocar ação nas tuas palavras. Quando se é contrariado, quando se vive uma frustração, no lugar da esperança, colocamos um profundo ressentimento e cumprimos com maestria o papel de vítima dos acontecimentos. Muito fácil arranjar um réu que nos tire a responsabilidade do crescimento. Muito fácil amparar um amigo dizendo que a cura está no tempo, difícil é acreditar que o tempo vai passar e que haverá cura nele quando a dor está em nós. Fácil demais insistir naquilo que já pressentimos ou até temos certeza de que não nos serve mais, difícil é se comprometer com o seu amor-próprio e se livrar do peso que é tentar mudar quem não deseja mudança alguma. Sempre teremos uma justificativa, um bom motivo ou um argumento irrefutável para prolongar a nossa infelicidade. Admitir que não temos as coisas sob controle é doloroso e quase inaceitável. Usamos a manipulação para tudo. E este movimento é sempre muito sutil, às vezes, até inconsciente. Mas é preciso estar preparado. A vida não nos avisa com antecedência se os próximos instantes serão de alegria ou sofrimento, mesmo quando achamos que estamos fazendo tudo certo.Mas quando há a entrega, quando há uma certa evolução espiritual, uma confiança de que tudo é instrumento para o nosso melhoramento, as adversidades não se tornam menos desconfortáveis, mas a consciência de que esta também é passageira, nos faz focar numa solução, não chafurdar no problema...
Estive chafurdando no problema até que tudo se tornasse cansativo demais e eu me lembrasse que estava sendo leviana ao proferir meu discurso otimista e bem-resolvido sobre tudo. Quando tive que colocar ação nas minhas palavras, descobri que a nossa crença deve ser renovada diariamente e que não vivemos apenas do acaso. Mesmo que você tenha encontrado seu grande amor na esquina de uma rua qualquer, foi preciso que você andasse até lá, mesmo que você tenha conseguido o emprego que almejou, foi preciso que alguém te indicasse ou que estudasse o suficiente para tê-lo. Mesmo que você tenha perdido um ente muito querido e não consiga ver possibilidade de restauração desta perda, existem outras pessoas nascendo no mundo e que vão cumprir sua missão nesta existência dentro do tempo concedido a cada um. Eu nunca vi lamentações resolverem problemas, nunca vi relações baseadas na carência pura darem certo ou desempregados conseguirem emprego desaguando suas desgraças numa entrevista.
Estou escrevendo isto tudo porque preciso me lembrar de continuar sendo grata, humilde, ousada e corajosa. E a não ser leviana com as palavras, com meus leitores. Antes de ser conselheira sentimental, eu preciso ter o meu emocional resolvido. Antes de opinar sobre um texto alheio, eu preciso ter um mínimo de embasamento. E pra todas as coisas temos que usar a honestidade.

Por isso eu vim aqui, agora pra me lembrar dessa gratidão, porque foi ela que me deu tudo de mais precioso que tenho. Porque ser grato é ser também merecedor.
*
*
Marla de Queiroz

P.S.: Interessados no meu livro FLORES DE DENTRO, mandar e-mail para marlegria@gmail.com
R$32,00 com frete incluso para o Brasil. O frete para países fora do Brasil custam em média R$ 23,00...MUITO OBRIGADA! Por causa do sucesso de vendas, encomendei mais uma pequena remessa, afinal, o Natal está aí!
Beijos, amores!

terça-feira, novembro 01, 2011

Dança


Desenho: Kurt Halsey

Atravesso a sala, ele me atrai versos. Não são apenas suas mãos que me conduzem, nem seus pés, mas seus olhos, sua pele quente, seus inversos. Ele é conduzido pela alça caída do meu vestido, minhas costas nuas, minha cintura envolta que não deixa que eu recue.Eu respiro fundo pra trazer mais fôlego, damos voltas, ele me aperta. Nossos corpos musicalizados.E o meu vestido mais curto,o corpo inclinado. E ele quase me beija, mas me possuindo daquele jeito meio manso, muito macho, cheio de força e delicadeza, decidido e sem sentimentalismo barato, apenas me olha bem perto. Desperto. Sinto-me vestida de vermelho e babados. Mas estou de camisola branca... presa no cativeiro dos seus braços. Seios que insinuam desejo. Ele finge que não repara, mas suas mãos invadem minhas coxas descobrem a umidade do que será permitido ou suplicado. E me diz no ouvido: saudade. E eu não respondo, mas meu corpo nu. Minha camisola muda a cor da luz do abajur. Atravesso a música, ele me atrai versos, e eu erro o passo, ele me traz para mais perto. Atravesso o corredor da casa, ele me atrai versos e me diz no ouvido uma frase_ um substantivo sem verbo: saudade. Atravessados na cama, ele me atrai versos e me diz no ouvido de um jeito sacana: saudade. Mas me falta o verbo. Atravessa o meu corpo, ele me atrai versos e eu digo sem jeito em seu ouvido: não quero. Atravesso a sanidade, ele trai os meus verbos e me induz a mudar de ideia quando digo: saudade. Eu quero.

*

*

*

Marla de Queiroz

P.S. Livro FLORES DE DENTRO, e-mail para marlegria@gmail.com.

GRATA!