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sexta-feira, outubro 28, 2011

Limpando o porão


Foto: desconheço o autor

Você pode até achar que eu não sabia, mas o meu peito apertado, sempre apertado, mesmo quando você era a coisa mais amorosa que poderia existir no mundo, mesmo assim, meu peito vivia apertado como quem está prestes a descobrir uma grande mentira. E a nossa doce mentira era esta: um casal que parecia ter nascido um para o outro. Mas você querendo que eu fosse mais ambiciosa e eu querendo que você fosse menos materialista e a gente quase enfartando com as nossas ansiedades agudas diárias e um tal de casamento que não era nem morar junto, mas quase era. A gente viveu um quase tudo adornado de poesia. Uma farsa cheia de lirismo,álcool e descompensação emocional. Tudo tão intenso: o beijo, o sexo, as conversas, as trocas, as parcerias, as diferenças, as semelhanças, as brigas. Depois você: a vítima. Depois eu: precisando reavaliar meu temperamento difícil. Mas você tratava mal os porteiros do seu prédio e eu pensava que nunca me casaria com alguém que trata mal um porteiro, mas eu queria que você me pedisse em casamento, mesmo que fosse para eu recusar... Eu teria recusado.Você sempre tão querido com seus superiores, simpático e engraçado, e tão irritadiço com a minha falta de ambição e com os seus subordinados. Eu querendo publicar meu livro, você querendo um apartamento de 6 milhões de dólares no Leblon. E você não pensou nos dias que dormimos juntos na sua casa ainda vazia, quando só havia um colchão e os lençóis que emprestei quando, depois da sua casa montada pelos móveis que ajudei a escolher, arrumou minhas coisas em sacolas de plástico barato pra dizer educadamente numa grosseria até então desconhecida, que definitivamente, era o fim. Depois, sua viagem marcada sem que eu soubesse, suas malas que eu não ajudei a arrumar para que você não esquecesse as coisas mais importantes como suas cuecas e carregadores de celular. E eu chamava nossa história de amor de cinema e todos que nos viam achavam a mesma coisa... E eu sofri tanto a sua falta, mas o meu peito não apertava mais porque eu deixara aquela mentira de lado. Pode parecer estranho que eu toque neste assunto depois de tanto tempo, mas eu precisava limpar este porão e criar um atelier nele. Porque agora com meu coração em paz eu consigo criar, porque agora eu só consigo ver transparência nas pessoas, e não alguém sobressaltado com senhas para tudo como se quisesse proteger sua grande mentira. Desculpa eu mexer nesta sujeira que já estava repousada no fundo do copo, mas como eu já te disse, eu preciso limpar este porão e talvez o sótão. E com meu coração tranqüilo, transformar estes espaços trancados há tanto tempo, num espaço aconchegante de criação, num atelier emocional onde eu possa colorir alegremente minha roupa, minhas palavras, minha nudez, minha falta de ambição...

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Marla de Queiroz

P.S.: Meu livro FLORES DE DENTRO, e-mail para marlegria@gmail.com

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domingo, outubro 16, 2011

Pois então.

Foto: Sara Sa


Pois então. Estamos todos na mesma encruzilhada e chove em todos os cantos da estrada, mesmo que se mude a direção. Pois então, eu quero que você me deixe só, só sendo. Não tenho energia agora para dar respiração a qualquer frase. Não é que eu esteja numa má fase, mas me veio um choro antigo, mal digerido, uma lembrança sem cor. Estava guardado, eu sei, num pedaço qualquer de um restinho desbotado de amor. Deixa só eu limpar essas lágrimas, clarear minhas retinas, desengasgar essa bolha de águas salgadas. Só estou desembaraçando os sentimentos que ficaram órfãos de mim. Preciso explicar a eles que não sou mais parceira_sou agora herdeira da sorte, achei o meu norte, os pontos dos sins. E por mais que eu amoleça não se aproxime: eu não quero abraços, eu não quero conselhos. Engatinhei demais em cima da brita durante os meus aprendizados, só eu consigo enxergar as feridas e o cuidado que preciso dar para curar os meus dois joelhos. Vá cuidar das suas coisas, embeleze sua rotina_ há tempos eu te digo que estar sozinha, às vezes, é minha necessidade e minha sina. Guarde seu colo, seu consolo, suas palavras bonitas. Me deixe só, com o meu choro.Não estou triste nem aflita. Mas preciso descobrir como desatar isto que surgiu sem motivo,desatar este nó. Não há “nós dois” agora, neste fim de dia. Amanhã, quem sabe, eu precise ou queira sua companhia. E te trago de volta, te abro a porta, te abraço pra sempre, assim,de repente. Mas hoje meu corpo clama somente por mim mesma:quero apenas o meu copo em cima da mesa, quero somente meu fiapo de domingo adormecendo aqui.

Quero a minha cama larga só pra mim.

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Marla de Queiroz

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segunda-feira, outubro 03, 2011

Chá das nove

Foto: Filipe Cabaco
Pra você, moço travesso...

Tenho me acostumado a receber o seu “bom dia” na hora mais sonolenta do meu café-da-manhã e a acordar definitivamente quando gargalho só porque você achou a minha história matinal bonita. Tenho me acostumado a rir muito mais de mim mesma porque você me acha engraçada e a sair mais enfeitada porque mesmo sabendo que não, tenho a impressão de que você me vê andando por aí, escutando sempre as mesmas músicas, no mesmo horário de sempre, mudando apenas os caminhos. Tenho me acostumado às mensagens ao longo do dia, aos seus mimos, a você sendo meu ouvinte passivo e sempre tão assertivo nas suas opiniões. Gosto dos seus cuidados e do respeito que você tem pelo meu lado mais maduro. Mas eu sei que você adora minhas molecagens e me espera à noite pra tomar chá comigo, talvez ansioso porque estou demorando um pouco mais. Secretamente, sem perceber, criamos nossos horários para promover e aproveitar mais os nossos encontros.

Tenho me acostumado a receber, eu que sempre dei até o que não tinha. E você me proporciona a vivência de um entusiasmo sem culpa. Antes eu achava que não era delicado estar tão feliz enquanto alguns sofriam. E por estas e tantas, tenho vontade de presentear você compartilhando um lado meu que talvez eu ainda não conheça, mas que você, com sua amorosidade, vem me ajudando a conhecer me dizendo com delicadeza detalhes sobre mim que eu nunca havia percebido_ tua sensibilidade é comovente. Gosto tanto da beleza que você me deu!Gosto do seu olhar atencioso e da sua maneira prática de me ajudar respeitando afetuosamente o meu tempo de resolver as coisas. Porque gasto muito tempo só sentindo, observando, contemplando, percebendo, mergulhando, vindo à tona e entregando as coisas pro Universo... Por isso, eu te peço: não tenha medo, eu não fujo do que é bom, eu aceito e agradeço...

(Tenho me acostumado a ter você por perto, por dentro, todos os dias, pra sempre... Hoje!)

Então, me espere para o chá das nove... Mesmo que eu me atrase um pouco.

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Marla de Queiroz

P.S.: Votem no blog! O selinho tá ali no canto direito! GRATA SEMPRE!