Páginas

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Próxima etapa

Foto: Luna


É como se a verdade fosse uma tromba dágua e saísse devastando quaisquer ilusões que nutri durante todo esse tempo. Mas não percebi isto repentinamente, foi gradualmente, até o dia em que comecei a investigar porque não queria te ligar, ou ver, ou estar junto de qualquer forma e quando você me ligava eu não tinha mais assunto. Ainda existia amor, mas meu corpo estava congelado, completamente destituído de afeto. E quando eu via seu nome no meu celular, pensava: “as mesmas conversas”. E quando você me chamou pro seu apartamento, pensei: “quero um lugar com mais aconchego, prefiro minha casa.” E foi triste demais não querer ver você porque fui pega de surpresa nesse desinteresse súbito pela nossa vida. E fiquei três dias vivendo um luto imaginário como se tivéssemos terminado há três horas. Mas não era o caso. Eu não estava me despedindo de um amor, mas de uma dependência. Eu não estava rejeitando você, mas a forma como estávamos conduzindo nossa história. E adoeci, e me fragilizei ao ponto de não consegui comer ou dormir, ou dormir a tarde toda e passar a noite tão descompensada com febres e descortinando pesadelos. E acordava triste pela minha falta de saudade. Indiferente às suas mensagens. E o seu rosto tão disforme nas minhas lembranças. E você quase sem querer perceber nada.

O que acho que aconteceu é que num processo lento, eis minha epifania: quem era eu na sua vida, na minha vida, na nossa história? O que tinha restado de mim depois de viver tão imersa e imensamente o nosso encontro? E onde eu caberia nos seus planos do “eu vou fazer, eu vou realizar, eu vou conseguir, eu vou viajar”?E o que EU imaginava pro meu futuro que não conjugava para “nós em laços”? Simplesmente eu passei a morar no teu abraço e, depois de algum tempo, seus braços me acorrentaram e eu sufoquei minha respiração no travesseiro, noite após noite para que dormíssemos juntos na posição mais confortável pra você. Nunca pensei que alguém pudesse perder a própria identidade em tantas sutilezas. Deixei minha solidão de lado pra me sentir desacompanhada por mim mesma, ao seu lado.

Ainda vivemos um namoro. Nada foi formalmente terminado. Mas um tempo de nós acabou. Uma fase menor precisa crescer. E amores grandiosos demais precisam de um mínimo de maturidade pra sobreviver.

Que assim seja!

*

Marla de Queiroz