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segunda-feira, dezembro 05, 2011

Expresso das três da tarde...

Foto: Desconheço o autor


Eram as árvores misturadas ao concreto, eu toda comovida, mas nossa história frágil, flácida, interrogativa, sem solidez ou alicerces: insustentável... Através do vidro do carro eu via tantas flores com cores que eu desconhecia_ me vesti quase como elas, tudo em mim estava vivo e vibrava em tons quentes, embora o cenário frio, a cidade ausente... Mas eu levei tanto calor praquele lugar, tão sagrado aquele espaço, tantas gargalhadas foram dadas e derramadas naquele banco e eu querendo cada vez mais abraçar as pessoas e contar histórias. Eu não tinha expectativa nenhuma sobre a viagem_ foi o que te respondi_mas fui cheia de amor e de mim mesma, apenas o Tempo não estava a nosso favor; em doses homeopáticas as horas sobravam, faltavam: desencaixavam-se, desencontradas. Eram muitos compromissos e, no fundo, a gente nem tinha mais nada a fazer... Deveríamos ter nos demorado mais naquela padaria, tomado mais chá no final da noite, (atendidos pela simpática Luciene com seus sete meses de gravidez)... Ou tirado mais fotos; guardei as flores daquelas árvores na memória... A noite fria depois de um dia alegre demais, minha boina vermelha, meu cachecol verde bandeira e o carro-banheira que foi embora antes que eu pudesse trazer comigo também aquela imagem. Depois a moça estranha que me fez chorar feito criança, nem sei o que pensar, talvez fosse compaixão ou terror... Fiquei com pena daquela imensa falta de amor. E lembrei de tanta coisa junto, me senti confusa e infeliz, com frio na alma...(Acho que você gosta mais de mim nestas horas, quando preciso ser cuidada). E no quarto que era meu provisoriamente, tomei um banho de água benta pensando na cama enorme e macia, de um lado quente, do outro vazia...E o dia seguinte... Então as rodoviárias são sempre tão tristes e ficar seis horas chorando é sempre tão longo, e uma despedida sem dar adeus pela janela fica parecendo que a gente não tem ninguém que vai sentir a nossa falta ao menos um pouquinho...E eu estava magoada voltando para casa, queria ter ido mais cedo, queria ter ido mais tarde, talvez nem quisesse ter ido, mas queria chegar logo em casa dentro das horas mais lentas do mundo... E na poltrona reclinada, meu choro profundo, um desejo fundo de saber ao menos o que eu queria, pensando que você não deveria ter gasto nossos últimos minutos no shopping mais caro do mundo, cheio de lojas e pessoas vazias... Você adulterou nossa alegria.

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Marla de Queiroz

P.S.: Amores, interessados no livro FLORES DE DENTRO, favor mandar e-mail para mim:

marlegria@gmail.com

Custo do livro com frete incluso para todo o Brasil: R$ 32,00.

6 comentários:

lucas repetto disse...

Linda a vivacidade de sua essência poética.

Gostei muito destes manuscritos.

Andréa Pinho disse...

Sempre um modo encantador de descrever a dor,divino.

placco araujo disse...

Quem sabe moça da blusa cor de rosa, esta pessoa nem ficou na plataforma para dizer adeus, pois não queria "realizar" tal fato, pois ao não vê-la partindo ficasse sempre com a sensação de que você ainda estaria por lá...
Quem sabe estes últimos momentos num shopping tão caro e tão distante do seu jeito de ser, fosse a unica maneira que esta pessoa encontrou para postergar a ida que ela não queria que houvesse...
Quem sabe esta pessoa ainda não te mande as tais flores fotografadas numa câmera especial, que até capte o sentimento junto com a imagem...
São tantos quem sabe, que só quem de fato conhece esta pessoa poderia opinar...
A nós, só resta compartilharmos da sua tristeza momentânea, torcendo para que estas últimas lembranças se esvaneçam e só sobre o que valeu a pena....

Beijos ternos

placco araujo disse...

Onde se lê esvaneçam, leia-se desvaneçam!!!

Ser Jovem tem dessas coisas ... disse...

" pela janela fica parecendo que a gente não tem ninguém que vai sentir a nossa falta ao menos um pouquinho..."

exatamente isso!

LM disse...

Compartilhei seu texto no facebook, muito bom o que você escreve. Parabéns!