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quinta-feira, outubro 08, 2009

Quando não escrevo


Foto: J. Pedro Martins

Porque se não escrevo, há poesia no corpo, todos os meus gestos nesse movimento pra ele, o meu outro. Porque enquanto não escrevo, eu experimento cada centímetro daquela pele, cada variação da temperatura daquele abraço, e o cheiro dele impregnando meu dia, a saudade me deixando em estado de espera pra daqui a pouco, quando nunca é tarde. E os dois chopes ao amadurecer da noite. E a certeza de acordar ao lado, e um projeto de vida sendo concretizado. E a boca sempre macia, nosso banho demorado, as conversas que atrasam o despertador nas manhãs sofríveis que desabraçam dois namorados.
Porque quando não escrevo, ele é minha paisagem. E é tão real e tão palpável que meus dedos só passeiam por caminhos contornáveis. E as palavras fogem de mim, as palavras trazem pra mim um corpo, um sopro, um torpor, e o calor que há em tudo que nos dizemos apaixonadamente encostados na imensa pedra que ele acaricia enquanto agradecemos ao Universo por ser tão de noite e sempre parecer que ainda é dia.
Porque se não escrevo não é porque me falta um drama, é porque me falta tempo pra viver tanta poesia.
*
*
Marla de Queiroz

10 comentários:

Thaisinha... disse...

quem faz poesia, vive dela.
Sorte desse oposto tê-la, ao vivenciar poesia.

Luise Costa Lima disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luise Costa Lima disse...

Marlinha,
você é fantástica sempre.
Cada dia mais fã dessas palavras, onde me encontro tanto....

Julieta Abiusi disse...

Caracolhesssss não faz isso com a gente não, menina. Arrepiei. Calei. Que bom vc estar tão viva por dentro. Boa sorte!
besos :o)

Clóvis disse...

Esta intensidade que deixa transparecer nas vírgulas, os espaços emaranhados de tantos sentir, pois sinto, cá, e me inebrio destas coisas todas, coisas assim palpáveis, sem ter nome, coisas, que me tocam e fazem soar qualquer gesto sutil, destes que pedem mais, e mais um bocado, e outro sentido.

Você é linda, mais uma vez.
Mais uma vez, de novo.

Um beijo!

Yuri Rodrigues Braz disse...

A quanto tempo Marla! Isso quem diz, comum a esses seres que se vestem de poesia, é a mais pura realidade desta vida.


Egoísmo do Poeta


Não existe, na dimensão do mundo,
Ser mais egoísta que o poeta
Em seus versos faz-se moribundo
Para partilhar o que lhe acarreta.

Se a tristeza desbota-lhe a face
Entrega-se logo à pena a escrever
Todos os versos tristes, sem disfarce
Para que o mundo sinta o seu sofrer.

Mas, se a alegria dá-lhe um sorriso
Só quer saber de desfrutar o paraíso
Daquele momento dantes tão ansiado

Esquece então da pena e da poesia
Pois da sua mente, a única fantasia
Está na tristeza do coração condenado.

Intimidador. disse...

Que continue te faltando tempo. Com um sorriso no teu rosto, ninguém reclama de saudade.

Até ;)

Donana disse...

AH! Então perdoamos. Que sempre falte tempo e sobre abraço e amor! Qualquer coisa vai escrevendo pelos guardanapos nas mesas de chope e pelas pedras ... de qualquer jeito a gente encontra. Um beijo, linda! Eu sempre, sempre por aqui!

Brisa disse...

Encontrei a Lua dia desses (sempre que falo qualquer coisa simples com o nome dela, me soa tão poético, hehehehe...) e ela me deu notícias suas que me deixaram muito feliz. Aliás, diziam respeito a esses escritos de hoje.
Que você tenha cada vez mais essas flores de dentro e os suspiros de felicidade. Mas, que você sempre possa transformar todo esse amor e beleza em palavras, para não nos deixar órfãos de você por escrito.

Grande beijo e sucesso sempre,

Gabi Cioch.

Rafaela Ventura disse...

Quando terminei de ler, pensei...
'queria ter escrito essa ultima frase'

Fantástico!