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quarta-feira, maio 20, 2009

Síndrome do coração partido

Foto: Bruno Abreu



Era tão estranho...porque mesmo sabendo que ia dar tudo certo, porque já deu certo, porque estava dando tudo certo, morria de medo que parasse de dar certo. E mesmo quando estava feliz, muito feliz, sentia uma certa tristeza porque só pensava quão ruim seria perder aquela felicidade. Pois estando sossegada e vazia como antes, pelo menos não tinha nada a perder...E vivia suas pequenas tragédias imaginárias como se fossem reais e ia esfriando, esfriando, se preparando prum tombo que nem sequer havia sido anunciado. E nem conseguia perceber que se eles já não mais passavam mal de tanta paixão é porque a coisa havia mudado: ganhara um equilíbrio qualquer que lhes permitia comer e fazer outras coisas triviais sem que se consumissem pensando no outro com toda aquela febre.Era pra celebrar perder aquele desespero pois continuavam trepando com a mesma fome, se fazendo companhia com a mesma diversão, falando das coisas mais importantes e evitando mergulhos fora de hora que poderiam terminar em feridas ou naquele esmiuçar insistente dos que se sentem num constante afogamento e precisam se agarrar ao pescoço de alguém pra não afundar sozinho E era tão estranho esse medo todo que quando corria na praia e o seu coração apertava, pensava logo que era um mau-presságio, uma angústia funda, um aviso ruim, quando na verdade só era preciso diminuir um pouco o ritmo e se lembrar de respirar adequadamente dentro daquela atividade física. E no fundo sabia que sempre daria certo, pro sim ou pro não, sempre seria como deveria no tempo que é próprio, na transformação que é necessária. E que o seu medo não mudaria o destino das coisas_ só a fazia querer de maneira estabanada e em estado de pânico, induzindo ao auto-boicote: evitava um abraço quando mais precisava dele, dava um beijo seco quando queria deixar que ele invadisse todo o seu corpo, deixava de escrever as coisas mais bonitas pra não alimentar um possível desinteresse do outro.E ficava jogando sozinha o jogo imbecil dos que temem porque ignoram a tranqüilidade. E ficava triste, desconsoladamente triste quando poderia estar sendo o momento mais pleno da sua vida: ela estava apaixonada pela sua confusão. Era só prestar atenção no outro, na atmosfera, nos gestos.Mas só tinha olhos pro seu medo.Era só ter mais confiança na vida e lembrar das tantas outras vezes que sobreviveu. E que munir-se não a imunizava. E ela só não entendia que isso ainda acontecia porque sempre investia na coisa errada: investia todas as fichas no outro esperando retorno até não sobrar nada pro trabalho mais minucioso: investir no sossego do próprio coração.
*
*
Marla de Queiroz

25 comentários:

Amanda Proetti disse...

Porque é tudo que eu escreveria, com cada vírgula e respiração, se tivesse a sua poesia não só em presença, mas em forma!

Paula Tavares disse...

Estava com saudades de passear pelos seus textos, pela sua poesia. Me sinto à beira do mar, no Leme, a te ouvir falar de amor e poesia, bebendo uma cerveja e vendo vc sorrir!

Leticia disse...

Marla,

Obrigada.

Hoje você aliviou meu coração transformando em palavras tudo aquilo que eu queria extravasar, não sabia como.

Pra você, o meu sincero carinho

Leticia

Juli disse...

É como se eu pensasse e você organizasse. Eu adoro os seus textos, adoro esse encontro que eu tenho, como se as suas palavras fossem as minhas (muito bem escritas, diga-se de passagem). Parabéns!

N.M.L. disse...

minha vida recente atual. to bege.

J.F. de Souza disse...

Os medos de amar...
O desespero vem do querer que dê certo...
Mas a gente sempre quer errado.
-----------------------------------

Bateu saudade de ler teus escritos, Marla qrida! Por isso, aqui estou! =)

=*

bia disse...

alma em versos ^^

linda!

Minhas Púrpuras Reticências... disse...

Era o que eu precisava ler para acalmar meu coração... amar não deveria dar medo.. aproveitar os abraços do presente e não tentar adivinhar os beijos do futuro... Perfeito!

Só posso dizer obrigada!

=)

Minhas Púrpuras Reticências... disse...

Era o que eu precisava ler para acalmar meu coração... amar não deveria dar medo.. aproveitar os abraços do presente e não tentar adivinhar os beijos do futuro... Perfeito!

Só posso dizer obrigada!

=)

Bruna disse...

Porque será que a gente tem medo de ser feliz? Beijos

Luise Costa Lima disse...

Lindooo! Já senti tanto isso também!! É como um texto meu que diz: "sempre tive mais medo da calmaria". Risos Quando vamos nos curar disso? Depois, se quiser, lê um texto meu chamado INEXPERIÊNCIA, sobre essa coisa estranha que é felicidade justa.
Parabéns!!!!

PHeu* Liz disse...

Seus textos são SENSACIONAIS!!!! PARABÉNS!!!

Isabel disse...

Apenasa para dizer q tenho cócegas com as tais sincronicidades - vc descreve meu momento tão acertadamente, dizendo-me o q preciso. Uma espécie de anjo-sem-o-saber. Ainda não comprei seu livro [grana e tals], mas o farei. Bjo e obrigada!

geo. disse...

como pode falar tão bem do meu sentimento? aliás, estou sendo egoísta falando do "meu" sentimento, mas digo isso porque estou passando exatamente por essa fase e quando chego aqui e me daparo com um texto assim, penso: era isso que eu queria dizer. é isso que eu sinto.

e daí você me arranca um sorriso.
e eu descubro por a+b o que muita gente já tentou me provar, que investir no sossego agora é o que mais vale a pena.

lindo marla, como sempre.
parabéns!

beijos

Lubi disse...

o que eu já soube tanto.

Flávia disse...

Marla, vc escreve muito bem... amo visitar seu blog.

Beta disse...

Para muitos, viver traz esse medo, esse afogamento, vulnerabilidade que você d-escreve tão bem! Houve momentos em que o seu texto virou espelho, tamanha identificação. :)
bjo,

Janaína S. disse...

Eu poderia fechar meus olhos e assinar no fim do texto, concordando com as linhas e entrelinhas.
Perfeito.

Dri Viaro disse...

Vim conhecer seu blog, e desejar boa tarde
bjs

aguardo sua visita :)

camila disse...

espelho: tão tão tão familiar, tudo isso... esses apertos que a gente não sabe se é alguém laçando ou dilacerando o coração.

um beijo e sossegos.

Paulo Viggu disse...

Sinto saudade. Eu não sei escrever carta, dessas cartas de matar saudade. Também falo de incertezas e, sei, aqui as coisas se trans"flor"mam em boa leitura, em prazer em minhas correrias mundo adentro. Aqui, sinto-me investindo na leitura certa e acerto.
Beijo aí. Ainda guardo sua pedra na beira do rio daqui.

Alana disse...

Olá, seu escrito são lindossss!!!!

Raquel Caribé disse...

primeira vez que leio seu blog e já virei fã, incrivel como bateu com tudo que tenho vivido agora, sou um monte de sentimentos que não sei explicar, mas entendi muita coisa lendo seus escritos... acho que só tenho que te agradecer muito, e continuar lendo sempre.
Valeuuuuuu!!!!!

Hortência Siebra disse...

Meu Deus estou pasma, inerte na frente dessa tela! É estranho demais ver me "descoberta" por alguém que não conheço, as minhas angustias, os meus medos, os meus erros! E do turbilhão de emoções que esse texto me causou... nada tenho a dizer e sim sentir e refletir!

Parabéns!
Obrigada!

Cristiane disse...

Que maravilha de texto, Marla! Nós deixamos de viver pelnamente, em função de medos que nós mesmas criamos. PERFEITO!