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terça-feira, outubro 28, 2008

Carências

Foto: Graça Loureiro
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Na imposição do lápis, hesito:

Escrevo um poema ou pinto os olhos?

Frente à maçã:

Dou a mordida ou uso o blush?

Esse tom bourbon

vem da palavra ou do batom?

Visto meu tomara-que-caia ou rezo:

Tomara-que-fiques.

Uso renda e saio toda prosa ou

espero que renda a prosa?

Expiro, inspiro:

Um romance?

Dá pra viver os dois ou

dou pros dois?

Não sei se ando movida pela vaidade ou pelo desejo.

Reminiscências ou feminiscências?

Poeta ou fêmea onde a carne freme?

Arre, estou em falta com os sêmens-deuses.

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Marla de Queiroz

sábado, outubro 18, 2008

O que os jornais não noticiaram


Não vou macular essa dureza do concreto com flores.Eu tenho respeito até pelas coisas sem calor, se honestas.Mas é que existe um jeito de adocicar a aridez com afeto.E eu fico olhando pra você e esqueço das notícias do mundo que é tão vasto, mas insistem em dar um foco extremo no que há de trágico nele.Ninguém contou que essa chuva fresca antecipou a exuberância daquela árvore adoentada.Ninguém se preocupou com o diagnóstico real da floresta devastada . Ou se o girassol que andava nublado se sentiu mais seguro aqui em casa.Eu jamais abri um jornal e li: esta página em branco é pra você escrever como gostaria que fosse o seu dia ou pra dizer como se responsabilizará pelo seu mundo.Ou talvez uma manchete simples: Existe um silêncio no mar que também é paisagem. Mas eu olho pra você e me vem tanta ternura que agradeço a esperança porque você é bom e me inspira a ser alguém melhor.Porque eu lembro sempre, quando eu olho pra você, que quando chove sobre o mar, a água doce e a salgada entram numa intimidade máxima.E não é à toa que o soro fisiológico é quase o resultado desse encontro mágico dos dois: um punhado de chuva pra duas pitadas de mar.Foi assim que eu curei nosso girassol.Mas isso, nenhum jornal noticiou.


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Marla de Queiroz

Resumindo


Foto: Paulo Medeiros

"Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser(...) Um segundo antes ainda poderia não amá-lo. Mas agora, suavemente, vaidosamente: nunca mais. No mesmo instante teve uma sensação de tragédia... E agora era tarde demais_ qualquer que tivesse sido o sentimento gerador, este para sempre se volatilizara. Era tarde demais: a dor ficara na carne como quando a abelha já está longe. A dor, tão reconhecível, ficara. Mas para suportá-la fomos feitos."(Clarice Lispector)


Foice, o tempo.

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Marla de Queiroz

terça-feira, outubro 07, 2008

Alguma certeza

Foto: Gregoria Correia

Escuta: o que te dou não é por você, mas por mim_ se tenho amor demais, eu preciso deixar derramar até que tudo escorra e que haja um total esvaziamento. E, novamente, eu me sinta plena do vazio. (Porque também preciso da purificação do não-sentir pra me entregar de novo plenamente). Não interessa se amor demais te envaidece, envaidecer-se é uma forma de não se achar merecedor, caso contrário, receberia tudo com natural tranqüilidade. Mas não é sobre você que quero falar, é sobre o amor que escorre pela ponta dos meus dedos, que me enche os olhos e a boca d água.É por esse amor que eu respiro fundamente e sinto alegria. Você é só um foco do que tenho transbordando. Nada além do não-definitivo com a sensação de eternidade. Você é a energia que sinto, um rosto desfigurado, puro movimento e luz, o que faz movimentar-me em direção ao familiar tão desconhecido. Amo para conhecer-me e tudo me escapa: o que sabia sobre mim se transforma no que ignoro, o que não havia me tornado me fascina, mas não consigo tocar se reconheço. Esse é meu processo de melhoramento: saber-me ilimitada, transitória. (Se ficares longe ou aproximar-se, o amor será o mesmo, esse outro do “pra sempre, agora”).
Escuta: eu não preciso fechar os olhos para ver por dentro a profusão de cores.Eu não preciso usar palavras pra dizer da comunhão das coisas. Eu não preciso estar embriagada de um amor concreto pra ver beleza em tudo. Ele está em mim, eu estou nele e onde eu for, chegaremos juntos.
Se alguém se assusta ou se comove, é ser-espelho. Sol-teu-espelho, digo.
Escuta: o que te dou é meu. E isso ninguém roubará de nós.

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Marla de Queiroz


domingo, outubro 05, 2008

Fugidio


Porque quando eu li no meu poema: “o mar arrebenta em fúria enquanto o horizonte, essa linha vertebral das águas, permanece imóvel, calmo...”, ele chorou. Deitou no meu colo e chorou. E eu continuei lendo, lendo pra não dizer coisas tão banais sobre nós dois. Eu estava protegida naquela leitura de um poema imparcial. Porque ele me achou tão cuidadosa com as palavras, eu cuidei pra não deixar a cabeça dele sem o amparo de um cafuné. Porque eu sabia que ele estava frágil e que a vida doía e eu era a força. Mas não entendi se eu estava me sentindo tão bem e ele foi embora renovado, porque fiquei tão oca, cansada e triste. Se antes de tudo fizemos amor com saudade. Se depois de tudo dormimos o sono dos deuses e, apesar de tanto, ainda andamos na praia, fizemos mil planos e eu fiquei contemplando embevecida, naquele momento em que eu precisava, o mergulho que ele deu no mar, no meio de um dia branco. E depois, antes de ir embora, ele me abraçou e agradeceu, e me elogiou e abraçou de novo e eu ri, e fui embora também. E depois ele ligou da estrada pra agradecer de novo. E eu estava triste, cansada, oca.Talvez porque eu nunca tenha me conformado com essas idas dele que carregam sempre a solenidade do eterno, que imprimem sempre em mim a impossibilidade de um retorno inteiro.
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Marla de Queiroz