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sábado, julho 26, 2008

E, na brecha de um medo...


Foto: Joana Muge
O amor nasceu assim, numa hora qualquer de um dia que não me lembro, eu estava distraída. Pode ter sido em janeiro ou novembro, não lembro a data, só o momento.
Antes de o amor nascer eu me ocupava com o óbvio do sexo bom que vinha dele, mas parecia que era só aquilo. Por isso me atirava nos braços do sofá e dizia fatal: ou você ou ele. "Seremos os três então", e ele se atirava no sofá comigo. Mas tudo era só essa ofegância.Quando nasceu o amor eu o olhava enquanto secava os cabelos à noite depois do banho. E ele me disse:
“ Vem logo pra cá, vamos fazer algo tão bonito que nos dê muita saudade depois, dessas que nos fazem rir sozinhos enquanto caminhamos, escovamos os dentes ou lavamos a louça”. Foi ali mesmo que nasceu o amor. Lembro, depois de tanto tempo, com um riso frouxo, enquanto enxugo os pratos.
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Marla de Queiroz


segunda-feira, julho 21, 2008

Carta de amor pra mim mesma...porque só eu sei o que preciso ouvir.



Marla,

Escrevo enquanto te olho por dentro. O que vejo nem precisa ser bonito, nasci para amar tudo que vem de você.Escrevo pra te fazer um afago.Porque te conheço inteira, naquela hora em que tudo é silêncio e sombra, naquela hora em que sua gargalhada é um sol.Desse seu corpo que nasceu para abraçar, eu conheço cada poro, cada taqui-bradi-cardia.Conheço cada sopro, cada falha na tua voz.Toda a força do teu canto desafinado, eu conheço.A intensidade do teu gozo, a fluidez das tuas palavras orgásticas que não admitem tutelas. Eu te conheço além da tua relação anti-convencional com teus homens.Com tuas mulheres. Com essas pessoas que você ama.Com essas que você se recusa a odiar porque não quer despender energia pra isso.

Eu te conheço doendo. Eu te conheço em paz.E sei quando você finge que nunca fingiu um orgasmo.E é por isso, Marla, que eu sou a pessoa que mais poderia amar você.Porque não me interessa onde você erra, me interessa o que você aprende, apreende, absorve.Me interessa é como você se transforma. Interessa é o teu olhar de novidade derramado sobre as coisas simples e cotidianas como se descobrisse a essência do mundo diariamente. O que interessa é esse seu medo da morte, a sedução que ela exerce sobre você e o teu instinto de vida tão maior que tudo.Eu te conheço boêmia, anestesiada porque tua intensidade sufocando, apertando os dentes.Eu te conheço premonitória, dando consultas em mesas de bar, plantando esperanças porque a intuição disse que sim, vai dar certo, e deu.

Eu te conheço arrasada, opaca, ferida, feroz.Rabugenta.Confusa. E não é menos Marla. É a outra ponta do extremo. A totalidade. Eu te conheço tendo recaídas, não sendo ingênua mas optando por acreditar no outro de novo, de novo, de novo. Mas só até a terceira vez. Eu te conheço com um mau-humor contagiante, com uma disposição esfuziante, com uma alegria solitária, com todos os teus amigos na praia, ou sozinha com os teus livros e uma canga à parte pra eles.Aquela que só entra no mar de mãos dadas com alguém porque tem medo de não sair. A que evita altura porque quando olha pra baixo só pensa na queda.A que se treme inteira lendo seus textos em eventos poéticos porque tem fobia de público.A amiga popular e agregadora. A que morre de ciúmes e toma gelmax efervescente pra acalmar a gastrite ciumenta.

Eu nasci pra amar você porque sei dos teus desesperos, tropeços, anseios. Sei da tua honestidade quando sente.E dessa intranqüilidade pela falta de ambição.Te conheço acordando de madrugada só pra anotar uma frase.E fazendo da prosa poética teu sossego. Da vontade que você tem de voltar logo pra casa só pra escrever aquele texto que nasceu durante a caminhada. Das tuas roupas com cores desconexas.Da tua irritação com pessoas desconectadas. Tua preocupação com o lixo. Teu preconceito com o luxo. Teu boteco copo sujo.E a solidão permanente e o teu namoro com a escrita.

O que ainda posso dizer? Que você, Marla, vive para a palavra, mas anseia viver exatamente aquilo que ela não alcança.
E é por isso que eu te amo além do amor.
Eu te amo para sempre. Hoje.

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Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 14, 2008

Divagações...


Foto: Silvia Afonso




Só um poema é remédio pra curar uma página machucada pelo silêncio.Essa frase me veio hoje à tarde, enquanto eu reclamava minha falta de inspiração.Pensei em escrever uma carta com notícias antigas porque naquela data de 2002 as melhores coisas me aconteceram. Era dezembro, suado. Eu havia chorado uma semana inteira pela perda de um HD onde eu tinha um livro pronto. Mas depois, veio o amor. Vamos reciclar essa história magoada, ele disse.E um raio de sol espancou minha tristeza.(Porque se a vida nos ressente, também nos restaura).

Se eu não escrevesse, minha carência seria apenas a falta de alguém, meu amor seria apenas mais um namorado, minhas despedidas seriam apenas mais um hematoma na alma,teriam apenas o adeus como adorno.E tanta alegria que vem vezenquando subitamente nos dias, seria apenas uma luz solitária. Quando a poesia resolveu morar em mim, tudo virou matéria-prima e eu ganhei uma espécie de entendimento maior sobre as coisas.Quando choro gotejo verbos, quando amo suspiro versos, quando grito desamarro palavras.E isso faz de mim mais generosa, porque compartilho. (Você me disse isso e eu achei tão bonito).

Se as coisas têm um nome próprio, cuido pra não confundir amor com apego, eu te disse tentando ser mais interessante. O amor é essa melodia que envolve, mas não se aprisiona o abstrato, as notas dançam na palma da mão por um tempo que é pra que se possa ver pra sempre o fugidio das coisas. Depois elas somem. Fica uma lembrança de tudo que foi importante. Mas a importância somos nós que damos. Têm coisas que seriam interessantes que eu me lembrasse pra compor um lado meu que ainda não conheço direito, mas por doloroso demais eu esqueci com a rapidez que durou aquela febre emocional.(Eu sempre sofri fisicamente pelas coisas importantes). Mas meu corpo não agüenta mais, adquiri a leveza por puro bom-senso. Penso pouco no que vejo.Quando acho bonito, não destrincho o conceito de beleza. Fernando Pessoa sabia das coisas.

Se a dor é insuportável ou a alegria desmesurada, a palavra sempre salva meu coração. Matéria-prima pra poesia é essa vida com seus incontáveis dias de azuis e sombras.

Eu tenho uma filosofia de vida que consiste em abandonar a cada dia uma certeza. Mas tenho ainda uma convicção: eu quero publicar meu livro antes de ter um filho e plantar uma árvore dentro de cada uma de suas páginas.
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Marla de Queiroz



domingo, julho 06, 2008

Sobre a espera

Foto: Fernando Figueiredo

Para M.C.que me contou uma história tão dolorida.

É que esse amor a bagunçou inteira. Jurou que viria vê-la por três vezes. E a mesa posta, a casa limpa, o vestido bordado. Agora o cheiro das flores que murcharam na chita do vestido lavado. Agora esse café frio, uma das taças intacta, o vinho pela metade. E ela contando sua coleção de esperas, crepúsculos e cartas rabiscadas em guardanapos.

Tentando se reorganizar novamente, rezava pra que tudo voltasse ao seu devido lugar: onde não havia nenhum (falso) entusiasmo e nenhum desses fogos (de artifício). Ela havia chamado de tédio um momento em que , na verdade, seu coração estava em paz.

É que esse amor a bagunçou inteira. E a louça suja de um prato só. E a angústia dura de um parto só. E toda a ternura, como havia lido em Drummond, toda essa ternura inútil, desaproveitada.

Ela só queria que essa dor tão familiar, lhe fosse estranha. E que alguma coisa lhe fizesse companhia, nem que fosse uma voz do outro lado que considerasse a importância que havia para ela de, pelo menos, ouvir um adeus.
E pedia esperançosa: Deus perdoa por eu ter amado desajeitadamente, quem não me amou de jeito algum.
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Marla de Queiroz