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quinta-feira, fevereiro 14, 2008

P.S.:

Foto: Nuno André Monteiro

E, no meio de tantas mudanças, muitas rupturas. Algumas coisas foram encaminhadas pro novo destino, outras se perderam irremediavelmente. O que sobrou posso contar nos dedos, antes eu mal conseguia fechar as gavetas_ tão abarrotadas de coisas, pessoas, lembranças. Mas o que houve afinal, além de um processo íntimo, pessoal, intransferível? Uma mudança externa também, porque há sempre um desconforto em quem se acostuma com o nosso comportamento mais antigo. E além de lidar com o luto da morte do que éramos, ainda o estranhamento dos que não aceitam o que nos tornamos. Porque mudam os gostos, a disposição e os planos. E alguns reagem como se você os tivesse abandonado no meio de uma viagem a dois por outro continente, quando só você sabia falar a língua local mesmo que os impedisse de aprender o idioma .

E, no meio de tantas mudanças, algumas desavenças. Só porque aqueles mesmos não entendem, não entendem, não entendem, porque não querem aceitar, que tudo é tão dinâmico e que nem deve ter sido tão brusca essa mudança, mas que a coisa maturou durante um tempo em que só queriam que você se envolvesse numa história DELES, que se misturasse nas emoções DELES, que traduzisse o mais íntimo DELES. E, ao mesmo tempo, você estava amadurecendo uma mudança sua e a coisa toda doía, doía. Mas eles não perceberam. Porque a demanda sobre a vaidade deles era grande demais, importante demais, imprescindível demais pra sua poesia.

E, de repente, a minha poesia não queria falar mais sobre nada disso. Minha poesia queria ser uma carta anônima, um silêncio, uma brincadeira. Minha poesia não queria ser nada além de uma frase jogada do mais íntimo de uma iluminação sobre um determinado assunto.

Porque, no final das contas, o que escrevo nem é poesia... é prosa, é carta, é desabafo, é qualquer coisa. É um bilhete manuscrito pregado no espelho só pra desejar “Bom Dia!”

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Marla de Queiroz

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Num fôlego só...

Foto:Alberto Viana d´Almeida


Dispenso a influência da angústia de Clarice Lispector por dois momentos: pra suspirar pelo amor de Riobaldo por Diadorim,(“Grande Sertão: Veredas” é a minha bíblia, Deus me perdoe)e pra escutar o Rei Roberto Carlos que me desconcerta com uma simplicidade quase dolorosa.Eu ponho o livro aberto entre as pernas e canto junto: “ quando eu te amei pela primeira vez, tudo era poesia, a juventude andava em nossos corpos, em nossa fantasia..." Você ri da minha mistura de ídolos, da mania de querer fazer tudo ao mesmo tempo e da emoção com que canto uma música que não é do Chico Buarque pra, em seguida, retomar repentinamente a leitura do trecho interrompido.Mas eu não estou sofrendo quando escuto uma música triste e choro sentida, eu sofro é por não ter escrito nada tão genial quanto Guimarães Rosa.(Ainda explico: é que eu nasci envelhecida, eu moro com a saudade).O meu humor oscila várias vezes nesse mesmo dia e eu consulto o calendário e o meu mapa astral pra saber se são hormônios ou os astros, e consulto você pra saber se sou insuportável.Talvez eu seja bipolar, eu penso, todo mundo hoje em dia é.Você sugere ver qualquer coisa na TV, prefiro descobrir o livro que ganhei do Xico Sá. Não consigo parar de ler ao folhear.Há tempos não escrevo um texto bom, reclamo pra mim mesma enquanto esvazio uma garrafa de vinho sem sucesso.Minhas emoções andam muito fragmentadas, concordo comigo mesma dando um último gole.É preciso que a música termine para que eu passe o rímel, o perfume e saia. Nesse momento só consigo fechar os olhos e soltar a voz com força, afagando o peito enfraquecido pela ansiedade.Estou esperando um telefonema há 3 horas, me antecipei pra medir o atraso.Na verdade, ainda há tempo hábil para o amor e vai ser tão melhor se só chover depois, intuo.A tempestade veio antes, você ficou preso no trânsito e vamos perder o filme, era o que eu temia. Mas eu comecei a ler um livro incrível, preciso conversar com alguém culto, rebato. Você entende com a mesma discrição da minha insistência.Você decide que vem, a qualquer hora, me acalma. Ainda temos um dvd ou conversas intermináveis, prometo. E eu torço pra que consigam remover rapidamente essa árvore que caiu obstruindo o trânsito. E rezo por dentro pra que ela não tenha sofrido muito.


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Marla de Queiroz

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Depois da festa

Foto: Baby (saMY)

Confetes, teu chapéu colorido e a minha saia de tule espalhados pelo chão. Agora meus cabelos molhados, tão castanhos, e os teus olhos azuis. Um resto de vinho e Bruna Caram com a voz tão limpa cantando “palavras do coração”, (queria ter dito o nome da música sem usar aspas). A minha cara lavada, o teu sorriso malandro. Um dia escrevi um poema menor que o título, você me disse em itálico. Eu já apareci em algum desses teus jogos de tarô?, interrogava. Sim, sim, meu Cavaleiro de Copas (eu respondia sem travessões). Sabe, eu tenho a sensação que antes de você, nada aconteceu de tão bom pra mim...Você vai escrever sobre isso algum dia? Não sei. Como vou amarrar essas palavras diluídas no beijo?

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Marla de Queiroz