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segunda-feira, julho 14, 2008

Divagações...


Foto: Silvia Afonso




Só um poema é remédio pra curar uma página machucada pelo silêncio.Essa frase me veio hoje à tarde, enquanto eu reclamava minha falta de inspiração.Pensei em escrever uma carta com notícias antigas porque naquela data de 2002 as melhores coisas me aconteceram. Era dezembro, suado. Eu havia chorado uma semana inteira pela perda de um HD onde eu tinha um livro pronto. Mas depois, veio o amor. Vamos reciclar essa história magoada, ele disse.E um raio de sol espancou minha tristeza.(Porque se a vida nos ressente, também nos restaura).

Se eu não escrevesse, minha carência seria apenas a falta de alguém, meu amor seria apenas mais um namorado, minhas despedidas seriam apenas mais um hematoma na alma,teriam apenas o adeus como adorno.E tanta alegria que vem vezenquando subitamente nos dias, seria apenas uma luz solitária. Quando a poesia resolveu morar em mim, tudo virou matéria-prima e eu ganhei uma espécie de entendimento maior sobre as coisas.Quando choro gotejo verbos, quando amo suspiro versos, quando grito desamarro palavras.E isso faz de mim mais generosa, porque compartilho. (Você me disse isso e eu achei tão bonito).

Se as coisas têm um nome próprio, cuido pra não confundir amor com apego, eu te disse tentando ser mais interessante. O amor é essa melodia que envolve, mas não se aprisiona o abstrato, as notas dançam na palma da mão por um tempo que é pra que se possa ver pra sempre o fugidio das coisas. Depois elas somem. Fica uma lembrança de tudo que foi importante. Mas a importância somos nós que damos. Têm coisas que seriam interessantes que eu me lembrasse pra compor um lado meu que ainda não conheço direito, mas por doloroso demais eu esqueci com a rapidez que durou aquela febre emocional.(Eu sempre sofri fisicamente pelas coisas importantes). Mas meu corpo não agüenta mais, adquiri a leveza por puro bom-senso. Penso pouco no que vejo.Quando acho bonito, não destrincho o conceito de beleza. Fernando Pessoa sabia das coisas.

Se a dor é insuportável ou a alegria desmesurada, a palavra sempre salva meu coração. Matéria-prima pra poesia é essa vida com seus incontáveis dias de azuis e sombras.

Eu tenho uma filosofia de vida que consiste em abandonar a cada dia uma certeza. Mas tenho ainda uma convicção: eu quero publicar meu livro antes de ter um filho e plantar uma árvore dentro de cada uma de suas páginas.
*
Marla de Queiroz



17 comentários:

Lubi disse...

Acho que essa certeza de nada saber, de ter essa simpicidade para aceitar que te faz grande.
Te admiro tanto.

Um beijo.

Mariana Braga disse...

Marla...
O que dizer a vc, qnd vc já diz tudo???
:)
Acho melhor silenciar.
(Uma reverência a vc!)
beijos

Lid =) disse...

Lindo!

Dani disse...

Uau!
Não sou poeta, nem sonho em ser, mas senti que todoas suas palavras poderiam ser minhas, caso o talento me fosse dado para tanto.
Estou amando passear em suas palavras! Parabéns.
Beijocas,
Dani

Luiz Carlos disse...

belas palavras!!!

"Se as coisas têm um nome próprio, cuido pra não confundir amor com apego..."

muito belo o que vc escreveu, vou até usar em um futuro...

parabéns

ytorres disse...

fico no aguardo ansioso por esse livro. tenho certeza que tera solo fertil!
por enquanto sigo me inspirando por aqui.

boa sorte!

Giane Luccas disse...

"eu quero publicar meu livro antes de ter um filho e plantar uma árvore dentro de cada uma das sua páginas."

Conseguiu isso num post...
Acredite, é bem difícil me surpreender...

Parabéns

Leandro Jardim disse...

Texto excelente, do mote à conclusão! Lindíssimo. E ó, já tens o livro, Marla, e bem o sabes, como eu também o sei ;)

beiJardins saudosons

katiucia manson disse...

adorei isso
gostei muito do encaixe das palavras.. mesmo mesmo ;*

rio daqui disse...

Sempre vem o amor reciclando as coisas dela. Também pudera: é uma moça vestida de poesias, guardando importâncias, sabendo das coisas fugidias. Como eu, esquece coisas dolorosas entre o monte de papel no canto da sala, porque é necessário gostar, achar bonito e se entregar. É o que essa moça faz com a sua literatura e eu gosto muito. Beijo nela. Paulo Viggu - Rio daqui.

Pâmela S. Melo disse...

Marla, acredite, você é a poesia em movimento, a ciranda mais perfeita dos versos e prosas!

Um cheiro doce pro teu coração.

moacircaetano disse...

feliz o mundo que tem uma Marla pra nos derramar palavras desse jeito tão belo!

Cacau disse...

Olha que há tempos algo literário não me surpreendia tanto...

"(...)O amor é essa melodia que envolve, mas não se aprisiona o abstrato, as notas dançam na palma da mão por um tempo que é pra que se possa ver pra sempre o fugidio das coisas. Depois elas somem. (...)"

Texto muito bem montado!!!

É Minha Cara...
esse beirou a perfeição!


Beijos... vários deles...

Cacau.

Anônimo disse...

PQP!!!Você é absoluta, garota!
Como consegue tanto, tanto das palavras!
Talento puro!
Parabéns, sou fão fervorosa!

O2 disse...

Marlinha (se é que te posso chamar assim!), como sempre fico um tempão sem te ler, e depois vindo do nada bate uma saudade de te ler a granel, venho aqui e perco-me sempre nas tuas junções mais que perfeitas das palavras...
:)
Não sei pq tu desapareceu!
Mas, pronto, eu n me vou esquecer nunca desse teu dom, e volto sempre para me embebedar dele!

Beijooo do outro lado do planeta.

Su

Maria do Carmo disse...

É muita inspiração!!!
Admiro muito seu talento.Que Deus
esteja sempre colocando palavras
sábias no seu pensamento e levando alegria a tanta gente.
Moro de inveja!!!Mas inveja boa,tá?
Digo isso,porque sou péssima para produzir.
Beijos!!
Sucesso!!!!!
carminha

placco araujo disse...

Às vezes para matar a saudade de você, passeio pelo seu blog e encontro coisas que me fazem pensar....

"eu me apaixonaria por esta coisinha irremediável"

Beijos ternos