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quarta-feira, outubro 31, 2007

Do caos ao cais



Foto: Leonardo Pacheco

Minha poesia me traz consolo, inquietação, devastação e paz.
Ela nunca me diz com antecedência se será de resgate ou de rebentação.
Ela nunca me diz se vai amparar no auge das minhas urgências.
Mas quando minhas palavras se apaixonam por alguém,
elas dançam no corpo dos dedos e se revelam entre tantos segredos
pra sanar o meu caos interno e chegar no eterno cais.

É que, às vezes, navegar é o que há de mais preciso.

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Marla de Queiroz

sexta-feira, outubro 26, 2007

Uma possível versão da autora...ou um desabafo meu

Foto: Fernando Figueiredo


Mas o que é minha vida além desse amontoado de palavras? É como se elas fossem um embrulho incrível envolvendo uma imensa solidão. Enquanto todos aspiram amores e coisas materiais, eu aspiro a verbalização daquela sensação indefinida, a metaforização do ato sexual mais cru e a possibilidade de colocar poesia onde não há.


Eu sigo brigando com essa limitação da linguagem, de vocabulário. Eu sigo tentando racionalizar a minha loucura como quem luta desesperadamente contra um câncer.Às vezes, tudo que preciso é de repouso intuitivo, mas as vozes, as vidas, os personagens que criei não dormem: seguem trepando, tramando coisas, sofrem, amam, nunca, nunca calam. E quando se revoltam, me omitem detalhes importantes da trama, do desfecho, me impedem de desenvolver aquela cena, escondem o rosto naquela hora em que poderia ter sido a mais perfeita foto 3X4.


Eu sigo tentando construir signos novos que repertorizados abrirão possibilidades até então inexistentes. Como quando eu digo que o dia acorda ou que a dor cochila.Como quando eu sinto que o silêncio espreita o meu grito interno.Como quando eu berro que namoro o vento. Como quando eu falo que o amor morreu, quando ele não morre.Essas coisas todas que eu digo e que vocês conhecem.Essa vida inspirada nessas dores contadas e que eu vivo quando escrevo.Essas paixões tão idealizadas e inventadas que me custam a perda do apetite, o aumento da libido e o aperto no peito. Esse acordar sem paisagens possíveis porque as teci como quando se pinta uma aquarela que não seca nunca...E as cores continuam dançando na tela e apresentando novos caminhos.Essa vida presa do outro lado da janela.


Eu não caminho por estradas, mas por frases. Eu determino destinos enquanto o meu me escapa.Eu não entendo esses momentos de raiva ou de amor por pessoas que nem conheço e que criei com a força da minha fome de dizer, de dizer coisas sobre tudo que habita em mim como idéia vaga e fugidia...essa mania que tenho de tentar aprisionar sensações que não admitem tutelas.


Eu entendo que talvez eu tenha sido cruel com alguns destinos dos meus personagens, mas a vida toda é essa oscilação de boa sorte e tempos miseráveis em que tudo que a gente pode fazer é esperar e pagar pra ver...Ou rezar pra que passe logo, ou pedir pra que o tempo pare. Essa negociação eterna que todos fazem durante seus dias, pra que sejam úteis também os sábados, domingos e feriados, eu faço com a palavra. Eu sei que ela não silencia, mesmo quando digo que. Silenciar não é emudecer.Mas ela muda de casa, ela explora outras áreas, ela viaja pra outros templos.


E, humanizada como está na minha vida, e materializada como é nas minhas histórias, tem temperamento, e, de repente me abandona como quem descrê do relacionamento que acreditou um dia. Ela me cospe na cara uma incompetência de dizê-la. Ela me atira restrições e pré-requisitos de leituras para que se ofereça a mim novamente. Então ela diz: atualize-se, desgarre-se desse estilo, descubra o seu, experimente essa narrativa, escolha outro elemento, vista este personagem com mais elegância, dispa essa cena de sexo, pronuncie pau, buceta, caralho, ao invés de pênis, vagina, ânus.Se exceda!.E, às vezes, eu não sei ou não quero ou não posso.


Não adianta espalhar flores pela casa quando o inverno é semântico.Não adianta mudar o título do texto quando o problema é a falta de assunto.Não adianta usar de artifícios quando a verdade se ausenta.Não adianta pintar um outono e tombar folhas secas, quando a vagina só ficará molhada se você a chamar de buceta...

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Marla de Queiroz

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P.S.: As outras versões aqui.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Arquitetura da Relação



Foto: Margarida
Por tanto amor a gente resolveu que vai morar um dentro do outro. Mas numa casa espaçosa com um quarto para cada individualidade. A gente quer que seja preservada essa pessoa que somos com nossos amigos e todas as lembranças mais especiais da nossa trajetória. A gente quer que nosso amor não preencha a nossa vida tão absolutamente a ponto de não restar uma lacuna que seja pra nossa vida anterior e pros potenciais que temos que desenvolver solitariamente. (Como quando a gente tinha tempo livre pra ser só e gostava disso.Como quando a gente não respirava apenas essa novidade da chegada do outro).

Nesse quarto pras nossas visitas, só não é permitida a entrada de fantasmas. De resto, todos os nossos convidados e aprendizados são muito bem recebidos. Depois a gente até pode escolher se compartilhará ou não. E por essa liberdade de escolha, a gente sempre tem vontade de compartilhar.

Por tanto amor a gente resolveu também que qualquer coisa que doesse um pouquinho ia ser conversada antes que doesse um montão.E que quando isso acontecesse, não ia ocorrer de cada um entrar no seu quarto espaçoso e deixar a porta trancada só pra assustar o outro. A gente vai reunir aquele punhadinho de problemas, sentar na sala do nosso peito e esparramar no chão como quem tenta montar um quebra-cabeça juntos sem olhar o desenho na capa da caixa. Porque a gente sempre vai querer descobrir a raiz da paisagem pra ela ser mais bonita. A gente quer conhecer profundamente a folha antes de compor a árvore. Porque a gente sabe que pular etapas é um jeito ineficiente de resolver o x da questão. (A vida não aceita o resultado do problema sem o desenvolvimento da fórmula).

Por tanto amor, desde que a gente foi morar um dentro do outro, nossa vida foi ampliada de alegrias sinceras. Eu ontem, por exemplo, estive muito só. Mas era porque eu não queria compartilhar coisas que não entendia. Eu existo além dele. Tinha um jeito de a vida entrar em mim tão diferente que precisei de todo o silêncio pra obter aquilo. Porque sou muito apegada às minhas inexperiências_ eu fico curiosa pra saber no que elas vão se transformar. Não quero macular o que é tão interior, pessoal e intransferível, assim como quem não quer mostrar a letra da música sem a melodia pronta. E ele estava na sala quando entrei no quarto pra tatear minhas confusões. E, em silêncio, ele respeitou meus barulhos mentais. E teve que suportar nossa rede na varanda tão vazia de nós dois, mas só por alguns instantes, ele sabia.

A nossa casa é ampla pra caber nossas individualidades, nossas lembranças, nossos amigos, nossos silêncios e tudo que estamos e o que podemos nos tornar juntos.

Por tanto amor a nossa essência é a parte mais preservada da casa.
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Marla de Queiroz
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P.S.: Meus amores, agora o nome do blog é transFLORmar-la...o endereço é o mesmo por enquanto...talvez eu também mude de casa.Veremos.

sexta-feira, outubro 12, 2007

A terceira versão_ ELA



Foto: Maria Salvador


Eu sou aquelas páginas que ela arrancou, os suspiros que ela abafou, o prazer que ela omitiu, a transgressão, a poesia escondida entre as cartas não entregues...Era pra eu ter sido a brincadeira de uma noite, a sobremesa de um casal, e, da garrafa de champagne, apenas a terceira taça.Depois tive que ser transformada num segredo,numa espécie de doença fatal.


Eu sou a pessoa pra quem ela ligava de madrugada, a quem ela visitava clandestinamente quando ele saía. Eu sou o motivo de todas as brigas que ela provocou. Eu sou a concessão dela aos apelos sexuais dele. E a tentativa de salvar uma relação falida. Mas me tornei um susto, um peso, o imprevisto pra quem tinha sua narrativa sob controle.


Eu sou aquele ponto e vírgula no lugar do ponto final de quem já tinha escrito o último capítulo do seu romance ideal.Ela nem imaginava que pudesse gostar tanto, ir além, sentir saudade quando estivesse sóbria.Eu sou as metáforas novas, a viagem inventada, os quinze dias na casa de serra sem dar notícias alegando que precisava escrever isolada do mundo.Eu sou o orgasmo mais intenso, a febre entre os lençóis,a dança dos travesseiros coloridos.Eu sou o café-da-manhã na cama, o banho de duas horas, o beijo de vinte e cinco minutos.Eu sou o poema que relata o encaixe dos nossos seios e o beijo de todos os nossos lábios. A história sobre meninas, sobre fadas e o violão encostado na lareira pra desocupar os braços pro abraço mais longo.


Eu sou as páginas que ela desistiu de publicar pra se proteger, se preservar.


Fui arrancada da história dela como essas páginas.Fui escondida entre juras de um falso amor que ela fazia a ele. Eu sou as tantas frases amassadas, descartadas da seleção dos capítulos.Mas sou a poesia escrita, tatuada no corpo. Sou a única digital que ela não conseguiu tirar no banho.

Eu sou essa emoção que ela rasgou da narrativa pra que os holofotes se voltassem todos pra sua história de amor mais convencional_eu seria a quebra da linearidade, a falta de estrutura do texto, o capítulo independente do resto do livro, aquele que sobreviveu sozinho.


Eu sou o silêncio deitado nos quartos,a cor do baton no retrovisor do carro.Eu sou o buquê de tulipas invadindo as tardes desavisadamente.Eu sou o final da espera, o amor de outras esferas.


Mas o que sei dele?Era um louco.Muito bem articulado, sedutor e completamente despudorado.Apertava meus braços com força,mordia minhas coxas com paixão e fúria, puxava meus cabelos, empurrava o meu rosto como quem desiste de dar o tapa.E , quando eu estava absolutamente entregue, quando eu estava quase suplicando a penetração, quando meus quadris se arcavam buscando o encaixe dele, me empurrava pro outro lado da cama e buscava a ela, que nos observava tocando-se com uma timidez que mais parecia culpa.E eu tinha que assistí-lo enquanto ele a possuía com ternura e calma.


Quando ela era aquela presa dissolvendo-se em suor, eu podia ver as veias do pescoço salientes com a força que ela fazia mordendo o travesseiro pra abafar o grito.Era quando ele me chamava pra perto novamente pra que eu intensificasse o prazer daquela mulher em brasa.E ela se contorcia como quem sofre, e era a cena mais bonita que eu já vi: um corpo como palco daquela dança incrível de labaredas azuis.(E eu sabia que ele só me possuiria quando ela já estivesse em transe).


Sim, ele era um louco. Mas só me possuiria quando ela não mais conseguisse pensar nada além de gemer e balbuciar palavras fraturadas.E ele me abandonaria antes que ela voltasse daquele sonho bonito.


Sim, ele era um louco inesquecível.

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Marla de Queiroz


P.S.: Este texto faz parte de uma peça teatral que estou escrevendo chamada Matrioska.

A primeira e a segunda versão podem ser lidas aqui.


P.S.2: Há tempos quero mudar o nome do blog...Por favor, deixem suas sugestões.
P.S.3: O Calcinhas ao Léo foi atualizado com os textos da sexta edição do jornal. Visitem-nos!

sexta-feira, outubro 05, 2007

Melodia proseada

Foto: Rosalina Afonso


Maria Violão era uma excêntrica convicta: só bebia cerveja com flor, vinho com cravo-da-índia e aguardente com açúcar-cristal...Mas o que mais a embriagava era a poesia. Um dia, arranjou um namorado: João do Cavaquinho.Casaram-se, ela parou de beber e tiveram três filhos: Ana Flauta, Antônio Percussão e Josimar Voz e Violão.

Maria Violão tá grávida de novo: disse que é menina e vai se chamar Música.A casa ficou tão pequena que tiveram que se mudar da partitura pra concha acústica.

Tem dia a briga é tamanha que tudo acaba em choro...
Mas, na maioria das vezes, a harmonia é tanta que tudo termina em samba.

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Marla de Queiroz