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terça-feira, junho 26, 2007

Poesia catada num sebo



Encontrou nas prateleiras de um sebo, pilhas de livros
com suas histórias despejadas nas dedicatórias.
Fragmentos de amores amarelecidos, vestiam palavras sem data:

Num Milan Kundera,
(um guardanapo e uma flor esmagada entre as páginas:)
“ A Insustentável Leveza do Ser”...só o título.

Num Manoel de Barros:
“Que teus-olhos-meus percorram estas páginas
ressarcidos das linhas que foram roubadas
pelos caminhos que os cupins traçaram.
E que te fizeram chorar feito menina,
com a cabeça apoiada entre as mãos,
antes de nos amarmos pela primeira vez.”

Num Jorge Luis Borges:
“ Uma lembrança discreta
(literária)
de noites que,
(amiúde)
entre farrapos de sono,
perdemos nossos corpos
nas cores de um mapa mundi.
Com carinho.
P.”

Numa Clarice Lispector:
“ Desfaço-me de tua musa,
porque os mistérios de Clarice
foram feitos pra tua curiosidade.
Sei que passeará teus olhos atentos
em cada grito abafado dessa mulher,
e que cada grifo teu trará pros nossos dias,
reflexões lindas e intermináveis.
Em tuas mãos agora:
meu livro dela,
meu amor teu."

Num Caio Fernando Abreu:
“Que te faça companhia nas noites
em que estarei ausente.
(Já sinto ciúmes dele)
Saudade já se faz presença.
Te amo (com erro sintático).
Volto logo.”

Num Guimarães Rosa:
“ Você é minha Diadorim.
Trouxe de longe pra ti
o sertão que nos fez amantes,
a literatura que nos aproximou tão de imediato.
Sou grato para sempre ao Rosa.”

Numa Hilda Hilst:
“ Tua poesia e a dela são casadas.
Me apaixonei pelas duas.”

Num Herman Hesse:
“ Por tuas febres, por tua fome de mais vida,
por tudo que dói em você pleno de existência
e pela beleza que bota nas coisas através das palavras.
(Sei que esse cara é meu rival, mas faça bom proveito.)”

Num Gabriel Garcia Márquez:
"Cem Anos de Solidão...uma declaração de amor às avessas..."

No livro de uma autora contemporânea desconhecida:
“Para o homem que me ensinou a escrever ( e viver) romances
quando eu só sabia tecer dramas."
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Marla de Queiroz
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P.S.:
Esse post nasceu de uma situação que vivi. Estava voltando pra casa a pé e, como é de praxe, entro em todos os sebos que encontro pelo caminho e fico algum tempo fuçando livros...sou viciada naquele cheiro doce das páginas velhas.Em um deles, com um título que dizia algo sobre histórias de amor entre meninas, li uma dedicatória de uma moça tão apaixonada por outra, tão delicada, tão cheia de segredos íntimos de alguém entregue a uma história recém-descoberta e, pelo que parecia, recíproca, que fiquei pensando naquele livro ali, vendido pra um sebo com tanto amor pulsando vivo naquelas palavras adolescentes.Lembrei dos livros que ganhei, das dedicatórias que me escreveram, das coisas lindas que posso relembrar toda vez que os revisito. Fiquei pensando no desapego de quem se desfaz assim, não só de um livro, mas de uma história.Porque têm dedicatórias que compensam a leitura das páginas que nem sempre tocam fundo.
Esse texto nasceu do que posso imaginar quando pago por algum livro num sebo e trago pra casa uma dedicatória alheia.E, apesar do meu apego às minhas dedicatórias, já me conformei com a perda de vários livros que emprestei, porque ainda acredito que são eles quem procuram seus donos.

quinta-feira, junho 21, 2007

Da chegada do inverno

Foto: Ana Meireles
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Manhã de outono, tarde de inverno:
duas estações repartem ao meio o dia.
O fôlego renovado do vento faz dançar folhas órfãs.
A força retocada do frio faz tremer nuas árvores.

Enquanto a noite suspira neblinas,
estrelas pendem de cansaço e sono.

Antecipados poentes romanceiam encontros,
e o sol seduz uma lua encabulada:
_De-cifra-me que eu te melodio...
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Marla de Queiroz
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Tem poema meu no MANUFATURA

quarta-feira, junho 13, 2007

Sobre o amor

Foto: Maria Flores
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Amar você é ter vontade de ir a lugares que não conheço e me expor de um jeito que me ilumina. É transgredir a ordem das coisas, transmutar medos antigos e cantarolar canções novas.Amar você é passear por entre haicais, sonetos e trovas.

Amar você é descobrir que alguns mergulhos são desnecessários, que algumas coisas existem para se conhecer só na superfície, dispensando dicionários, porque elas são simplesmente aquela estrada rasa feita pra se caminhar por cima e a esmo.É eu saber teu colo e você a minha mão quente. É esse nosso afago relembrar a euforia das paixões adolescentes. É poder ouvir exatamente o que foi dito sem procurar uma mensagem oculta, uma palavra mágica dissolvida no contexto ou outros indícios. É respeitar tuas vontades, tua inconstância, tuas dificuldades. É saber que uma meia-verdade pode ser a verdade mais sincera de cada um...

Amar você é também mergulhar nos meus textos, e ficar submersa observando as coisas por dentro porque a densidade delas é o essencial, é o meu centro. É entender tuas limitações porque me olho e vejo as minhas, é conceber minhas mudanças porque também vejo as tuas. É não deixar que nada corrompa nossas essências, porque nos queremos melhorar para o mundo, porque queremos embelezar nosso universo, porque queremos ser além das aparências. É saber que cada passo que dou será na direção que escolhi e que só terei o conforto da sua companhia se, por acaso, quiser seguir o mesmo rumo. Porque somos unos, múltiplos, imensos, nunca os mesmos, sempre os únicos, os mais intensos.
É encontrar leveza nas emoções que nos transbordaram porque estávamos prontos. É escrever um dicionário de palavras distraídas. E adentrar o corpo de um poema recente, ainda disforme. É falar de amor usando a metáfora mais inocente. É também experimentar a simplicidade com que tudo pode ser vivido, até àquela hora em que o desejo dorme. É vir à tona e, sem sustos, te deixar ser e me vir refletida, pedra bruta antes de ser polida, até a hora da próxima fome.
Amar você é amar aquilo que, de outra forma, jamais faria sentido: é abraçar teu passado, teus traumas, teus vazios, tuas confusões e angústias existenciais como quem abraça a um amigo.
É agradecer profundamente, ao acordar, por esta pessoa inteira, que jamais será uma metade e que me escolheu para a soma, e que com todas as alternativas que teve, preferiu seguir comigo.
(Amar você me fortalece.)
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Marla de Queiroz

domingo, junho 10, 2007

Sobre a perda

Foto: Paulo Medeiros


Eu te prometo que um dia, o mundo vai amanhecer sem violência, pura poesia...e que vários passarinhos vão acalentar tua alma angustiada. Um dia a vida vai ser tão suportável que você vai achar bom abrir os olhos pela manhã. (A minha poesia anda muito machucada pela sua ausência.Ainda não sei quantos colos serão necessários pra reparar a perda de uma pessoa inteira. Você, que se lançou aos céus acreditando que poderia voar com suas asinhas de vidro, minha menina ingênua, perdoe a inutilidade do meu abraço atrasado).

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Marla de Queiroz

domingo, junho 03, 2007

Nú ar-dor


Foto: Maria Flores
Ainda arde na memória
a gérbera vermelho-língua:
germinando versos orgásticos,
desabrochando paixões,
e consumindo corpos
num mar de fogo.

Brisa de brasas
espalhando incêndios
pelas peles, pêlos, púbis.

Carnes exauridas pela febre,
fremem.
Pólvora.
Explosão.
Ruptura.
Cacos, caos e fim.

(Passos ágeis tropeçam agora
em pétalas de suor, sal e sangue.)


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Marla de Queiroz

sábado, junho 02, 2007

Mal-me-quis


Foto: Ivone Peoples
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Lágrimas:
pétalas de água e sal.

Pranto:
flor de mar
(no olhar.)
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Marla de Queiroz