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quinta-feira, abril 26, 2007

Quando o MUITO vira APENAS



Eu não estava triste, estava atenta.
Eu não estava alegre, estava irônica.
Eu quis que a vida me mostrasse
todas as outras reais possibilidades.
E esfreguei os olhos pra desembaçar
o que, antes, era só neblina.
E precisei de muito tempo pra estar junto
e entender o que era só distância.
Eu tive muito tempo pra saber
que já era a hora da mais completa desistência.
E, reavaliando desde o início,
foi que descobri:
o que eu chamava de amor,
era só rima.
O que eu chamava de poesia,
era só vício.

(Saber a hora de ir embora é coisa que só o tempo aprimora.)

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Marla de Queiroz

domingo, abril 22, 2007

Encarcerada



A paixão cortou minhas asas.

Sigo esbarrando em pedras, antes fossem nuvens.

Emburrecida de querência,enlouquecida de ardores

eu rezo por um bocado de sono

e um punhado de paz.

Porque a respiração chia

feito vinil antigo e mal guardado.

E os olhos que miram tudo

só vêm o mesmo rosto.

Não importa que eu esteja ao ar livre,

a paixão me aprisiona ao pé da coisa.


Eu só queria um amor que acendesse em mim exuberâncias novas.

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Mala de Queiroz

terça-feira, abril 17, 2007

Abraço Refeito


Foto: Paulo Cesar

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Vem caminhar ao meu lado, amor.
Nesse tapete dourado
de folhas despencadas das amendoeiras.
Vamos tocar nas flores
suadas de orvalho e perfumadas pelo sol.
Vem caminhar ao meu lado
até que seja estendido
o varal de estrelas na cabeceira da noite
ou que possamos beber
desse trecho de chuva que amadurece ao relento,
na madrugada.
Vem caminhar ao meu lado, braço dado,
deixando esquecidas no vento
nossas palavras machucadas.
Vamos refazer a solidez
daquele início do capítulo
em que éramos tão lúdicos e líricos.

Eu escrevi uma narrativa de tanto amor,
por favor,
não rasure a minha docilidade.

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Marla de Queiroz

sexta-feira, abril 13, 2007


Passou o dia pensativa juntando coragem na saliva até encorpar a voz.
Aproveitou o ápice da sua agonia e, num impulso, disse tudo numa sensação só:
“A partir de hoje, não sou mais tua mulher, decidi gostar de outro”.
No início ele riu da ousadia, mas o silêncio que ela fez em seguida preencheu
de sinceridade aquela novidade.
“Você ficou maluca, de onde tirou isso?”
“ É que você nunca gostou de mim no grosso mesmo do sentimento...sempre foi essa coisinha aguada e mal-cuidada,água parada esperando doenças...”
“ Mas ninguém decide que vai gostar de outro de repente e, simplesmente, começa a gostar!”
“ Ah, mas eu decidi...Ele vai realizar um sonho que tenho comigo desde menina:
ele disse que vai gostar de mim bem do jeitinho que eu gosto de você.
A diferença, é que eu sei merecer essas coisas...”
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Marla de Queiroz

segunda-feira, abril 09, 2007

Inundação


Foto: Ricardo Calha


Fazia tempo eu não dissimulava uma briga sabendo que ele acha tão engraçado quando eu fico emburrada.
Reclamei meia-dúzia de coisas,suspirei um sono mentiroso e deitei afastada e imóvel pra ele achar que era verdade.
Mas fui amolecendo até ceder porque ele tinha argumentos irrefutáveis na quentura das mãos, dessas que sabem quando um corpo foi feito pra dormir junto.
Miudinha como chuva fina que cai só pra serenar os olhares e aumentar febres, fui despejando a minha pele em todos os poros dele, naquele oceano de fomes.

Luz amena e sussurros de Cazuza numa gravação doméstica antiga.
E a gente se misturando conforme a música, enquanto a lua se esvaziava no primeiro parágrafo do outono...

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Marla de Queiroz

quinta-feira, abril 05, 2007

Desvario


Foto: Carla Salgueiro


Em noites de lua cheia
eu oscilo doida,desvairada.
Coração desata em peito-ardências
um desejo de correr e de ficar,
urgências.

Poesia escorregadia
esperando um descuido da tensão.
E eu aflita, tão afoita
trocando meu reino
por qualquer bocadinho de razão.

Em noites de lua cheia,
a vontade do grito.
Arma em punho,posição de ataque
à espera do conflito.

Reações exageradas
descompensações fatais,
versos afogados,
antecipando finais.

(E essa insônia perpétua fazendo curvas nos cílios das horas)

Em noites de lua cheia
tudo que há de calmo em mim,
se deteriora.

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Marla de Queiroz

quarta-feira, abril 04, 2007

Próximo passo


Foto: Ana Red

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Tanta coisa mudou e ele ainda não sabe que
um ponto desfeito no meio do casaco de tricô
é prenúncio de inverno antecipado,
campanha de coração novo
arrecadando (outros) agasalhos...

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Marla de Queiroz