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sexta-feira, agosto 03, 2007

Depois da tempestade


Foto: Rafaela

Talvez ele não saiba que aquela dor que ele causou, calou os olhos dela violentamente por uns tempos.Isso não é crime, é carma: magoar alguém assim, dentro do melhor vestido, remover com lágrimas o rímel cuidadosamente passado, deixar tão descrente alguém que achava a vida mágica...

Talvez ele nem desconfie que quando ele disse eu vou embora e ela tudo bem, logo que se deram as costas, ela respirou fundo uma, duas, três vezes, colocou quatro gotas de floral de Bach embaixo da língua e se afundou na tristeza escutando Killing Me Softly da Roberta Flack e Como Vai Você? do Roberto Carlos.E que passou sete dias lendo Nietzsche revoltada com o “último homem” e discordando do “Pequeno Príncipe” de Exupéry. Entendeu perfeitamente o I CHING quando disse que não era favorável atravessar a grande água e foi dormir sem sono, meditando cura e mantrando plenitude nas caminhadas matinais que só fazia se houvesse chuva. (Mas tentou suicídio comendo o último pedaço de pizza de calabresa esquecida, desde aquele dia, dentro do forno apagado...Porque morrer de amor seria um exagero).

Talvez ele nem imagine que ela parou de sair com os amigos pra beber vinho em casa escondido, no café-da-manhã. E escreveu vinte e nove cartas sobre a raiva e nunca enviou porque era moça espiritualista e tinha que manter o discurso saudável do “isto também passará”.(Não mandou, mas depois da segunda garrafa de vinho às três da tarde, foi por um triz).

Talvez ele nunca saiba que ela mudou os móveis de lugar, mandou queimar o colchão que já conhecia tanto o peso dos dois, e deu pro morador de rua o edredom que testemunhara tantos abraços noturnos.Dormiu no chão, quis mudar de religião, leu Lacan e criticou Freud pelo seu processo lento e generalizador.Pensou em mudar de curso, de profissão, de cidade.Quis mudar de si, já que seu corpo era a casa de um só sentimento.Fez uma viagem, não quis conhecer ninguém, posou de antipática porque estava apática.Se escondeu da lua cheia, fez do seu quarto um campo de concentração e depois se mudou para sala.Trancou todas as portas pra não entrar qualquer ilusão.Por tanto tempo era ela e sua tristeza intransitiva.

O que ele também não sabe porque nem ela sabia, é que um dia ela acordaria assim, vazia daquele amor.A dor exaustiva de cabeceira havia cessado, deixada no fundo do poço.Parou de se alimentar daquela porção individual de desilusão e enterrou o passado num túmulo desconhecido, para que não houvesse a menor possibilidade de revisitá-lo.


(Ele quase soube disto quando pensou que ainda estava recente para ensaiar uma recaída,um flashback. Mas para ela, que só soube na hora do reencontro tão almejado,já era tarde.)

Havia criado um mantra: No momento em que me dei inteira, ele me deu as costas.Isso não pode continuar supervalorizando uma saudade.Ser uma mulher curada de um amor, dependendo das circunstâncias, pode ser melhor que ser uma mulher amada...por ele.

E o seu melhor vestido pedia uma nova chance e um rímel à prova dágua.



*


Marla de Queiroz




22 comentários:

Cacau disse...

Doce Marla...

Porque gosto tanto dos livros de Mikhail Bulgákov...

Ainda não deu pra ir a Moscou na Rússia, mas desconfio que ao chegar lá saberei exatamente onde ir ou ao me deparar com um lugar, me lembrarei dele... simplesmente pela forma que Mikhail Bulgákov escreve e os descreve em seus livros. Os lugares, as sensações, as pessoas... ahh... não há como se perder em Moscou depois de lê-lo...

Lendo você, tenho uma impressão gêmea...

É fácil ver a cena: " Talvez ele nem desconfie que quando ele disse eu vou embora e ela tudo bem, logo que se deram as costas, ela respirou fundo uma, duas, três vezes, colocou quatro gotas de floral de Bach embaixo da língua e se afundou na tristeza escutando Killing Me Softly da Roberta Flack..."

Dá vontade de colocar no colo...
Te tirar com a mão o sofrer do peito... a dor do coração...
de juntar os cacos, talvez até colá-los...
mosaico?...
mosaico de alma é bonito?...
não... definitivamente não...
Não gosto de mosaicos...

Tens o dom...
Mas dom sem trabalho é praticamente nulo...

Bom ver que seu dom é lapidado constantemente e qual a um diamante, quanto mais faces ele tiver, mais valioso é!

Orgulho-me de ti!

Bjs com todo meu carinho...

Cacau.

Ariane disse...

"Quis mudar de si, já que seu corpo era a casa de um só sentimento"

maravilhosa sua escrita!
belo e envolvente seu texto...

beijo

Clóvis disse...

É muita beleza pra um só momento, Moska ao fundo cantando "Trampolim" de uma maneira sublime:

"Você não sofre porque
Não sente o que eu sinto
Há um iceberg em você
Que eu tenho que derreter..."


E este teu texto a me dizer tanto, Marla.
Tocou tão forte, mexeu tanto com tantas questões, precisei parar umas três vezes para esfregar os olhos e conseguir continuar a minha leitura, como se estivesse em frente ao espelho, vendo-me inteiro.
As imagens nunca estiveram tão próximas, bastava-me olhar pro lado, pra cama, pro violão esquecido aqui, pro jornal, pra blusa azul, pro cd da Aretha, pro meu resquício de letra que deixei num papel em cima da mesa...

E depois um presságio tão bom me tomou, porque tem coisas que só a boa-tristeza(?) pode clarear mesmo.



Amo-te.

Elenita disse...

Marlinha, meu amor, o que eu posso dizer?.... Emocionada, totalmente emocionada. Não é mais abril... =))

Obrigada pela poesia que me alimenta a alma, pela amizade que me poetisa a vida...

Te amo. MUITO.

Lelê

Dora disse...

Marla. Eu já ouvi as pessoas comentando que não têm "sobre o quê escrever", porque tudo já foi escrito. E eu lendo este texto seu, pensei exatamente o contrário...Pois, quanto já não foi escrito sobre "desilusão amorosa"!
E então entendi claramente que não é "o que" escrever que importa, mas, o COMO escrever...
Este percurso atravessado, para se livrar do sofrimento do des-amor, está um primor de boniteza! Ironias saborosas, fraseados inusitados, referências inteligentes...
Amei!!!!!!!!!!!!!!
E já falei demais!
Beijo você!
Dora

eliz pessoa disse...

Marlegria,

somente sua sensibilidade como escritora e como pessoa pra conseguir trazer à luz, um pouquinho do que todos experimentamos nessas vivências de amores.

Sempre faltam palavras pra traduzir o que sua escrita nos provoca...

Um brinde a sua luz!

E um outro coração apertado de um pouco de saudade...

Com Carinho,
eliz

Juliana Pestana disse...

Porque nenhum vestido vermelho resistiria a você... e eu não consegui ficar calada diante disso tudo...

A sua luz é a sua melhor vestimenta. Que pena que a luz agride aos olhos de muitos...

Eu não preciso dizer mais nada... vc reconhece todos os meus e s p a ç o s ...

Sou fã, admiradora, amiga e orgulhosa demais desse seu talento: como poeta, como ser humano.

Carol Montone disse...

Marla ...
voc6e você e você...mil vezes vocês....tu e essas letras santas que combinadas na sua capetice fazem a gente rir chorar , exorcizar, sonhar e principalmente querer mais e mais...adorei...ri muito com o sucicídio a la pizza, com as 29 cartas de raiva e com as duas garrafas as três da tarde...delicioso de te sorver....beijos
tô com muita raiva...nao consigo atualizar meu blog...desde ontem tentando...deu pau e eu não entendo nada dessas coisas...nao consigo colcoar nenhuma imagem....tá um saco...quando eu peço para salvar trava...continuarei a saga da ignorância...
beijos mil e boa semana flor
te enviei email viste????

Elza disse...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito orinal, parabéns 2x!
rsrs..
boa semana.
=]

Cássia disse...

Há textos seus que, quando acabou de ler, não tenho o que dizer, mas quero te dizer algo sem saber o quê. Dá para entender, não é? Como se eu quisesse te dizer o que não é passível de palavras, mas que eu sei que você entende e entenderá, sempre.

Beijos com amor.

Freddy Charlson disse...

Talvez ele não soubesse - ou até soubesse, mas não quisesse assumir - é que ela o amava, mas, agora, amava mais a si mesma, mesmo que tal sentimento não fosse alardeado ou tão evidente como o sol que queimava o deserto de sua, a dele, alma. Não, ele realmente não sabia. E, assim, não poderia compreender que as horas passadas, de mãos dadas e enrolados sobre o antigo edredon, em frente à tv, assistindo a clássicos românticos, cujas cenas eram entremeadas por goladas adocicadas de vinho, ficariam apenas na memória. Dele. Não mais na dela, que a vida urge e respira, ofegante, pedindo atenção.

Lubi disse...

Tão perfeito e grave. Tão intenso como você sabe propor.

Lindo.

Porque a vida é assim. Quando alguém vai embora, nunca sabe o que restou, nunca sabe se haverá algo quando pensar em voltar.

Um beijo enorme.

Jefferson P. disse...

belo texto!

bjos de poeta!

Naeno disse...

INSINUAÇÕES

Essa lágrima de prata
Que sinuosa percorre
O leito macio da face dourada
Não me convence mais
Ela já jorrou por mim
Em cada momento torpe
Em muita dor de fachada
E não me convence mais.

Pelo menos uma vez
Dispa-se da vaidade
Sinta uma dor de verdade,
Um amor, uma paixão
Falsidade, sordidez
É tudo jogo de cena
Parece atriz de cinema
Representando uma ação.

Seja sincera,
Seja você realmente
E sinta a dor que se sente
A cada separação
Ou então fique
E viva um momento ardente
Desses que prende a gente
Num ato de sedução.

Evite o choro
Para a representação
Fuja da ostentação
E simplesmente me ame.
Não há desdouro
Em seguir o coração
Pois se querer nunca é vão
Se me quiser me chame.

Um beijo
Naeno

Rodrigo Scaliante Ariza disse...

Gostei demais moça...
desses que a gente começa a ler sem intenção e fica preso pela tensão.

abraços...

Rafael disse...

nossa, que blogue bonito. *.*
as fotos e tudo.
e esse texto soou tão sincero. acho que terei de voltar aqui mais vezes. =DD

Mônica Montone disse...

Ia dizer que minha maninha precisava ler esse texto, mas vejo que ela já leu ;o)

belo, flor.

beijocas,

MM.

Sua Lua Particular disse...

Definitivamente o ego dele nunca daria conta do vestido e do rímel que a vestia. Nem o doutor Juvenal Urbino conseguiria cuidar da dor deste ardor!
Te amo.
Obrigada por me surpreender - sempre... meu amor maior.

beijo.

gdec disse...

Há muito tempo que não vinha aqui e estava com saudade.
Não sei se seu sofrimento é verdadeiro mas se não é, ainda é mais .
Estou consigo
Geraldes de Carvalho

Thata disse...

história da minha vida nos últimos meses. os móveis, o edredon, o vinho, a viagem...Marla, você anda me observando com binóculos? medo ;)
bj!

Rosianni disse...

Este foi o segundo texto que li seu. Seu bloggler, desde o primeiro texto que li, já está em meus favoritos! É, não estava enganada, você é linda! Parabéns pela forma linda como escreve!

Elsânia Estácio disse...

Marla!
Como sempre você arrazandoooo ...
Que texto maravilhosoooo!


Essa parte é uma das melhores:

E o seu melhor vestido pedia uma nova chance e um rímel à prova dágua.

Temos que nos dáuma chance para viver umnovo amor.

Sucesso linda.