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quarta-feira, março 21, 2007

Irreversível.




Quando terminei de falar, senti foi a dentada da tristeza em meu peito. Eu fui andando, andando, quase olhei pra trás e pedi que desconsiderasse aquilo tudo. Mas não dava pra desmanchar aquele ponto final. Não se remove um "adeus" com um "esqueça tudo que eu disse". É que eu pensava que nem ia doer. (Nem deixei que ele me tocasse, eu não tinha tempo pra arder).E foi com meu coração disparado que apressei o passo e ganhei estrada.Eu respirava fundo chamando a tranqüilidade de volta.Mas ela não veio.Enquanto me afastava, pensei que eu tava indo embora de tudo nele.E sei que fiquei como um ranço, algo que lateja até que se perdoe. Era ele aprisionado na lembrança do que eu havia sido. Só tive paz mesmo, quando o seu coração desmanchou o hematoma da saudade num choro compulsivo, no colo do melhor amigo. Porque nem calma eu tinha pra ajudar.A carne sempre fraca pra afagar, acabava indo mais longe e tudo voltava ao antigamente.Aí eu tive que ficar quieta no meu canto, toda lacerada pela falta.Foi um período solitário em que vivi o luto necessário.Ele nem desconfiou que eu também estava triste, talvez se sentisse melhor se soubesse.Mas eu tinha que fazer valer minha palavra, demorei muito tempo tomando coragem.Demorei muito tempo desparafusando aquela gaiola e, depois, reaprendendo a voar.

Tive ímpetos de escrever uma carta falando das qualidades dele, de tudo que havia me feito crescer. Mas quando fui escrever só consegui dizer: desculpe, não se pode negociar com a paixão.Porque eu também não entendo às vezes esses caminhos que a vida tece.E nós que morávamos um no outro, ficamos sem casa.
Perdoe a falta de abrigo, é que agora eu moro no caminho.

*

*

Marla de Queiroz

19 comentários:

czá disse...

do bonito mais dolorido, dona marla...

Anônimo disse...

Querida Marla,

Vc se supera a cada dia! Lindo de doer... Tô sumida dos comentários, mas ando sempre por aqui, fã que sou. Beijo,Claudia

Muleça disse...

Minha menina, moça, mulher dar a volta e volta sempre com muita graça e garra, um verdadeiro espetáculo alá 'volver', Pedro Almodóvar não sabe a história que está perdendo. Que pena. Ele saberia brincar.
Com suas meias coloridas ela sempre fala tudo, na verdade elas sempre falaram. E através destas meias que a nossa história de amor começou, se encontrou e se achou. Meus olhos as seguiam, se prendiam e ao mesmo tempo se encontravam. Enquanto muitos perdem o rumo do abrigo, eu e ela nos encontramos no meio dos nossos caminhos... e assim não corremos perigo de nos perder... pois sempre acharemos algum caminho. Como ontem. Eu tenho olhos orvalhados, ela tem olhos de chuva, temos uma pretinha madame, uma folete particular e com tantas companhias, sentimentos, chuvas e letras saímos por aí...... criando asas e buscando o nosso caminho, seja qual for.

........... oma veco!!!

Alê Namastê disse...

Muito lindo tudo que escreveu. E ao escrever o brilhete, mais do que nunca falou das qualidades dele sim; porque você falou que um morava no outro e é pensando em nós mesmos (no nosso amor próprio) que ressaltamos o melhor que encontramos no outro.

Por vezes, seria mais fácil ter uma borracha do tempo e apagar acontecimentos indesejados.

Sinto a dor do Adeus em cada palavra que você escreveu.

Beijos*

bernardo disse...

Dona Bonita,
Anda encrenqueira ou aborrecida, chorosa que nem se aguenta mais...Mas sempre, sempre tão especial.Teu jeitinho de dizer que anda estranha, toda esquisita, é a coisa mais bonitinha do mundo!!!
Eu gosto de vc de qualuqer jeito.
Na verdade, me emociona.
Beijos.

MillaCri disse...

Como a falta dilacera o ser..
Mas, apesar de dolorido re-aprender a voar é sempre uma experiência espetacular!
LINDO o seu texto!
Beijinhos

Obs: te linkei, tá?

Rayanne disse...

Linda, linda, linda minha.
Reconheço tanto nesses versos.
E dói uma dor que não é minha, mas é, simplesmente. Deve ser de todo amor que te tenho.

Mas também reconheço tua força, tua explosão e a florada que vem, com cheiro de um tempestade que caiu, morna.

Amo.

***Todas as estrelas***

Leandro Jardim disse...

Danado de bom, mas esse final... fenomenal!!!

"Perdoe a falta de abrigo, é que agora eu moro no caminho."

Isso aperta pontudo aqui o fundo!

beiJardins

Cacau disse...

Doce Marla...

A mim só cabe ler...

Como pode, né?
Acredita?... sinto falta de você...

Fique em paz!
Bjs com carinho,
Cacau.

bibicastel disse...

Lindo e dispensa comentários.

Ju disse...

Vir aqui é sempre puro encantamento!
Linda demais, vc.

Bjs

paulo vigu disse...

Não desmanchar pontos finais e ganhar estrada é o contraponto. Crossroads - tempo vai - vento vem. Sempre sinto essa moça em toda sua latência de corpo, de coração, alma. Intensa como a intenção de desparafusar gaiolas. Vamos curar esse peito?Riodaqui ~~~~~~beijo~~~~~~Paulo Vigu

Cecília Braga disse...

Airumã,
Sempre por aqui. Que é lugar místico.En-cantos de mar.Tons de azuis.Por demais lindo!
beijo na alma.

Dani disse...

Oi, Marla! Puxa, sempre tão difíceis os pontos finais. E você escreveu tudo de um jeito tão bonito, fui me emocionando daqui, lembrando das minhas histórias e me reconhecendo em algumas das suas linhas. Parabéns pela coragem, parabéns pelo sentimento que aflora em seu blog e parabéns pela fotos escolhidas, lindas! Virei te visitar mais... Beijo

Fabiana disse...

Convite feito e (espero ...)aceito.
Pronto !
Vc escreve muitíssimo bem, sabia ?
Beijos.

Fabiana disse...

Não conheço ninguém que seja blogueiro. Tenho uma amiga que escreve também . Chama-se Rafaela. Posso conversar e ver se ela tá afim. Vai ser bem interessante. Um encontro literário. Quero aprender com vc... Beijo, linda.

Milton disse...

Lindo...saudades de passar por aqui!

Anônimo disse...

Simplismente algo que dispensa qualquer comentário. Quem leu, pode imediatamente sentir. Parabéns, vc é fenomenal!

Marina Raposo disse...

Marlinha,
Não te vejo faz tempo... mas depois da primeira visita ao blog, irremediavelmente, voltei.
Parabéns.
bjs
Marina (sabe quem, né?)