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segunda-feira, julho 31, 2006

Uma Pétala


Foto: Tatas del Gosto

Você é um MARCO na minha vida, a síntese mais completa dos melhores adjetivos do AURÉLIO.
E eu sou uma MARLARIDA que brotou na sua AORTA...
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(Marla de Queiroz)
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domingo, julho 30, 2006

Palavras Líquidas...ou lágrimas minhas.


Foto:Maria Ivone Ferreira

"Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim."

( Clarice Lispector_ quem mais???)

Meu travesseiro acordou molhado...Não era a chuva, eram as minhas despedidas dos "sentimentos antigos, já confortáveis"...Viver tem dias muito nublados quando a simples existência nos dói nos ossos. É como mergulhar num mar que não dá pé quando nem se sabe nadar... Não julgo, não culpo o mundo, antes trago a responsabilidade pra mim e digo: " o preço de uma alegria explodida no peito, é essa angústia sem um réu..."

Se não fosse a palavra, eu me contorceria inteira em cólicas existenciais...E quando acho que já foi o bastante, a vida chega aos borbotões e me diz que há mais...

Acordei sem uma menina dentro de mim. Antes ela tivesse me acordado com o choro mais sentido do mundo pedindo cuidado, atenção...Eu veria a ferida e faria um curativo. Ou tiraria o band-aid e usaria o bisturi...Mas é tão maior e tão silencioso! Às vezes não sei se aguento, às vezes acho que sim. Senão, o aprendizado seria só esse sufoco.

Eu preciso de ar puro...e de uma mirada sincera pro horizonte amplo mesmo que tudo fique embaçado pelas lágrimas que eu não escolhi, mas que me aconteceram.Você sabe do que falo.
E se eu me entregasse ao vôo? Mas sou flor, arraigada ao solo.
Preciso das suas asas.De você.
Me empresta uma mudança brusca? Tenho urgência!

Um choro de palavras líquidas é o que resta... Sem barulho.

( Quando acordei meu travesseiro estava molhado. Eram lágrimas brotadas do mais fundo de uma dor inconsciente, mas nítida. Tinha uma menina assustada no meu sonho. Tinha uma ferida aberta e muito susto.E um rio caudaloso de amargas águas. Depois veio a chuva, o colo, o violão musicando o poema, o vinho encorpado de sabor aveludado. E aquelas músicas todas cantadas com a veia do pescoço saltada.Quando acordei meu travesseiro estava molhado. Eram lágrimas. Muitas. Minhas.Acho que passei a noite regando meus sonhos)

Marla de Queiroz

E eis que ele ressurge: poético, confuso, determinado e fértil. Eis que ele ressurge tranqüilo e viril. E me planta um poema no colo.

Terreno

Se a terra é fértil
sua função é pasto.
Nasce um fruto-sorrisodo
terreno que é vasto.

As árvores emergem de cada broto...
Mas as sementes,
mesmo doentes,
viabilizam desgosto.

Se o caule vem à tona
quer respirar.
E quando num seio qualquer alimenta,
o pouco que inventa
consegue brotar.

A árvore sabe
quando insuficiente venta...
Mas cria e dispersa
a sombra e o vulto,
o calmo e o susto,
o vácuo e o ar.

(Marco Aurélio Guiotti_ o Marcão!)

sábado, julho 29, 2006

Da intensidade... (ou rima besta pra falar do que me arde)


Morri à míngua de excessos."

(Mário de Sá Carneiro)


Se eu não fosse tão intensa,
Eu não teria essa fome, essa urgência,
Não teria essa sede embrulhada numa emergência,
Me pedindo clemência.

Se eu não fosse tão intensa,
eu dormiria em paz uma noite inteira,
(talvez um pouco mais)
Sem me arder o corpo em febres e
desejos de inícios conjugais
Eu não surtaria de abstinências.

Ah, se eu não fosse tão intensa
Eu não devoraria com os olhos,
meu corpo não gritaria o desejo
Minha boca até negaria um beijo.

Se eu não fosse tão intensa,
Eu não umedeceria os lábios
numa prévia de aconchego
Não vibraria em ouro e dor
No anseio do beijo

Se eu não fosse tão intensa
Eu sempre teria um outro pretexto.
Eu me encaixaria em outro contexto....

Mas se eu não fosse tão intensa...
Eu não seria esse texto.

(Marla de Queiroz)




sexta-feira, julho 28, 2006

Da paisagem

Foto: Nino Mascardi

“Acendemos paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre o vôo da nuvem e a prisão do charco.Afinal, somos caçadores que a si mesmo se azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara”.
(Mia Couto_ “Cada homem é uma raça”)


Ela sugeriu novos passos, outras andanças
Ele disse que os caminhos estavam exaustos.
Sugeriu uma nova semeadura
Ele interrompeu pra falar da nuvem magra que desconhece o seio da chuva;
Recusava-se a deitar sêmen sobre as entranhas do solo seco.
Sugeriu adubo.
Ele dissertou sobre a poeira que só fecunda o ar com o que irrita os olhos...

Então sugeriu um outro olhar, um pincel, uma tela, cores novas e uma outra borboleta pra pousar dentro da moldura de mau-gosto, da paisagem ressecada.
Ele acatou...Como se tivesse uma outra alternativa.

(E do solo ignorado colheu solidão: essa fruta oca que brota das sementes de oportunidades desperdiçadas).

Quanto a ela, seguiu voando... precisava de pólen.

Marla de Queiroz

quarta-feira, julho 26, 2006

PERFIL 2

Foto:Ugly

Capricorniana com ascendente em touro e a lua em escorpião.
Era pra ter os pés plantados na Terra mas a Água dessa tríade me fez ascender a Manoel de Barros, me enamorar por Rosa, traí-lo com Mia e Lispectorar qualquer delicadeza que venha da gravidade dos meus desejos.

(Sou um touro no sentido estrito da falta de razão. Capricórnio que se atira em precipícios. Escorpião que dispensa fogos e artifícios).

Já me deitei com Drummond e acordei com Schopenhauer. Idealizei meus príncipes e os deletei no primeiro capítulo pra me embriagar com um desnorteado plebeu. Já disse "adeus" no auge da minha paixão e me desesperei com o “até mais” daquele moço breve que eu não queria nem no sonho, mas que me pareceu tão mais definitivo quando o disse, que foi quem me rendeu a melhor metáfora.

Eu sei como devorar uma história .Diversas foram as vezes em que escrevi uma carta de amor catando elementos pro poema da despedida. E chorei por não sentir saudade quando escutei PECADO em espanhol, cantado por Caetano, com aquele solo de violoncelo que se parece tanto com uma história tragicamente desencontrada. Que eu esqueci.

(Nenhum final de relacionamento amoroso me deixou mais inquieta do que quando estive longe de casa e senti sono, fome ou frio... vezenquando eu minto quando escrevo!)

Mas alguma coisa em Vênus brilha em meus olhos com suavidade. E faz de mim casta dentro do enorme despudor que tenho... Porque
moro nos ventos, danço alegremente durante a mais assustadora tempestade, tenho medo de lagartixas,borboletas amarelas pousam em meu corpo quando encontram segurança, esqueço de regar minhas flores e sou conduzida, induzida e seduzida a viver e a escrever por esse paradoxo que fez casa em meu ser e que eu chamo do mais puro e irremediável amor.


(Mas não sei viver em doses homeopáticas: o calor só me penetra quando arde no que há de mais líquido em mim.)

Marla de Queiroz



terça-feira, julho 25, 2006

LIBIDO



Foto: Luiz Alberto de Almeida Freitas

(Como um novelo desenrolado
pela mão distraída
vou deslizando entre dedos
desfazendo-me em curvas e círculos
_ esparramada e macia_
seduzida pela superfície
que me prenderá num abraço).

Marla de Queiroz





segunda-feira, julho 24, 2006

Lascívia


Foto: Kevin Summer
Não vi o seu rosto
_ ele estava mergulhado entre as minhas coxas_
Não beijei sua boca
_ ela estava ocupada me beijando os lábios...
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(Marla de Queiroz)
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sexta-feira, julho 21, 2006

ECLIPSE



Foto: Paulo Serra

Quando eu sou aquele longo segundo aprisionado no seu olhar,
há um eclipse:
A fusão do sol do meu corpo com a sua pupila dilatada.
(Marla de Queiroz)

quinta-feira, julho 20, 2006

De como transformo a rotina em dias bonitos...

Foto: Daniel Camacho

Sei que o dia será bonito quando me proponho a acordar mais cedo e vou andando tranqüilamente para o trabalho ,participando da paisagem acordada pelos dourados do sol ameno do inverno_ eu me aventurando pelas ruas como quem passeia dentro de um quadro de Miró. Ou quando inauguro o meu dia chuvoso no ônibus lendo um poema do Manoel de Barros, sentindo ainda o cheiro de xampu nos cabelos do banho recém-tomado. E quando chego lá, mesmo meio enjoada daquilo tudo e faço aquela brincadeira que faz todo mundo rir pra descontrair, sei que o resto do dia vai ser mais bonito.

Na hora do almoço, daquela comida de sempre, quando resolvo que comeremos alguma coisa que esperamos pra comer aos domingos ou nos dias em que recebemos o salário, e tomamos uma tacinha de vinho escondido pra relembrar como o proibido moderado pode ser gostoso e que faz toda a diferença, a beleza se revela gratuita.

Se eu passar no sebo no final da tarde e ganhar 3 horas fuçando livros e perder 40 reais levando-os pra casa barganhando preços ou pré-datando um cheque, ou se eu encontrar aquela raridade do Guimarães Rosa recém-chegada que ainda nem colocaram preço e está em cima do balcão...será lindo, tão lindo.


Quando eu voltar pra casa, se eu me abandonar meia horinha na cama sem pensar em nada, olhando pro teto, sem tirar a roupa do trabalho, sem me preocupar com a arrumação do quarto ou qualquer coisa desse tipo só pra apertar o play daquele CD que já estava rolando antes de sair cedo, o refrão pela metade, escutando atentamente, sentindo cada acorde daquela musiquinha que penetra todos os ambientes da minha casa e da minha alma, sei que a beleza do resto do dia está garantida.

Depois tomar aquele banho demorado, usar o óleo delicioso ou o hidratante perfumado, a camisola de cetim limpinha... Ligar o computador , ter as palavras arreganhadas escorrendo pelos dedos no teclado até sentir que é isso, que tá pronto, ler aquele e-mail do amigo saudoso, mandar outro mais saudoso ainda e gostar tanto da minha vida assim, com meu coração sossegado, escolhendo minhas surpresas e sentindo aquele sono na hora em que sei que vai me permitir acordar super bem no dia seguinte...ou receber o telefonema convidando a transgredir e cair no samba pra chegar de madrugada e acordar na mesma hora de sempre, ressaqueada, sonolenta e feliz...não importa.

Sei que o dia será mais bonito quando lembro de determinar certas coisas, como fazer do cansaço um cantinho de silêncio e repouso pra dormir pesado e do edredon o abraço mais caloroso enrolando o meu corpo com cuidado dentro dele pra que tudo pareça afago, conforto, aconchego. Quando me proponho a melhorar os ambientes por onde passo ou, pelo menos, me predisponho a estar bem dentro deles.Quando me permito transgredir sem culpas, sem dramas.

Gosto de saber que a minha criatividade serve, principalmente, para arranjar outras alternativas e driblar meu fastio, minhas angústias, meus conflitos, amenizar minhas crises e fazer dos meus dias invejavelmente deliciosos: desses que tornam uma autobiografia bem mais gostosa de ser escrita ou mais propensa à censura...;-)


(Marla de Queiroz)



terça-feira, julho 18, 2006

"Eterno Retorno do Mesmo"



O toque inusitado do telefone mudo há tempos, rasgou o meu dia em duas metades.E, de repente, alguma coisa densa se instalou no ar viciado dessas janelas fechadas do meu quarto.Não era um peso, era a saudade avolumando os resquícios de vento.Era pra ser bom, mas não como antes. Tinha calor, mas dessa vez vinha com mais ternura, sem tanta força_ pra mexer na ferida propondo curas e falar de coisas tristes num tom saudável.A voz mansa do outro lado me convidava pro antigamente.Mas eu com a surpresa dele entulhando a minha voz de sustos, só conseguia respirar fundo no início.

Não declamou poemas dessa vez, mas desatou em mim um monte deles, como sempre. E fui dormir mesmo sem sono, porque somente nos meus sonhos a nossa história acaba bem.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, julho 17, 2006

Pra compartilhar


Foto:David Marcos Vazquez

Tudo foi especialmente bonito, inclusive o cenário: os dias estavam irretocáveis mesmo no inverno. Corei as bochechas no sol pra depois vestir branco e casaco colorido e me proteger da agulha fria do vento_ eu parecia uma borboleta com asas patchwork.
Especialmente bonito também foi o momento em que o assunto se estendeu até alcançar a raiz das minhas palavras e desenterrar uma história antiga pra sanar uma curiosidade alheia e curar uma ferida minha. Então vieram as flores em cima da mesinha do computador com a carta mais doce que dizia:


“ Abriste teu mundo pra mim com tamanha doação...Continuo vendo que não és uma privilegiada e, sim, uma buscadora de tons novos para tua caminhada. Teu colorido encanta, essas flores são ‘vermelho-marla’, vermelho para combinar com todo amor que é teu...e de mais ninguém...”

Tomei um banho quente de 25 minutos, lavei cuidadosamente os cabelos e aproveitei pra chorar... É que tem cores novas que surgem na minha vida e que por falta de alguma ousadia em saber simplesmente aceitar, choro pra aprender a receber sem tentar retribuir imediatamente. Eu fico constrangida com presentes muito grandes porque me desmantelam, me deixam mole, derretida, vulnerável.
O que ficou disso tudo além da beleza, foi a promessa de que abrirei meu coração pra essa coisa que evito por ser desconhecida, assustadora e necessária.

E nem quero pensar na solidão desses meus primeiros passos.

(Marla de Queiroz)

Que a semana comece bem pra todos nós. Que as experiências nos alarguem por dentro e nos melhorem...sempre. E que haja alegria. E serenidade quando houver dor.Porque isso tudo é só uma parte do processo.Desse eterno processo. Não percam o foco, nem a esperança. A meteorologia nem sempre está certa.

domingo, julho 16, 2006

Da amizade.


Foto: Isah

Eu sei dos meus privilégios.Convivo muito bem com a minha solitude porque, quando estou acompanhada como hoje, num sábado de sol com vento numa praia quase vazia,sou nutrida pelo mais delicado e intenso amor. Eu queria muito que vocês pudessem ver o que acontece quando os meus amigos aparecem pra conversar me olhando nos olhos: a gente se declara, se emociona. A gente se toca com uma profundidade de esquentar o coração e fica quase sem entender o que está acontecendo naquele momento que é de pura adoração.E a gente fala muito, elaborando cuidadosamente as frases que explicitam o nosso amor.Emanando poesia.Porque a gente tem um cuidado enorme com essa coisa especial que nos aconteceu. A gente sabe que não se economiza amor nem elogios.

Eu queria que vocês vissem como fico bonita nesses olhares que me fitam sinceramente.Eu queria que vocês vissem como são bonitos os que me cercam. Eu queria que vocês pudessem ser tocados assim: com fundura,naquilo que a gente tem de mais lapidado e que não esperou uma ocasião mais apropriada pra compartilhar porque é gratuito e emerge súbita e naturalmente...


Sabe quando amanhece e era pra ser só mais um dia de praia e esse dia vem recheado de coisas tão grandiosas que você precisa de ajuda pra sentir? Espero que saibam. Eu não conheço sensação melhor.

(P.S.:Ângela, Kátia, Marina, Letícia, André e Jordana, vocês trazem à tona o que tenho de mais genuíno,de mais autêntico. E eu adoro ser quem eu sou quando estou com vocês).



sábado, julho 15, 2006

Trecho de um diálogo.




Foto: Jana Perrone Machado

PARADA CARDÍACA
(Paulo Leminski)

Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.

*

_Se é verdade o que te digo?

_São as minhas "meias-verdades" mais sinceras...

(Marla de Queiroz)


sexta-feira, julho 14, 2006

DE-LÍRIOS...


Foto: Graça

Eis que novamente surge aquela fome doida de ti. O apetite súbito que intumesce o sexo e abarrota o corpo de hormônios safados. Uma vontade atroz de tê-lo entre os braços, coxas, seios, entrelinhas, entre as flores do meu vestido pela metade do corpo. A saudade de nós dois entre tantos copos , nossos corpos tontos e ensandecidos pela febre que nos deixa afoitos e quase aflitos, mas que não nos apressa. A querência tão familiar e sempre inédita.


E me recordo de quando te recebo e acolho dentro: no espaço febril do meu ventre onde nem eu tenho acesso, e que você transita com a naturalidade de quem passeia pelo próprio quarto...

E novamente surge essa fome doida de ti nessa cama cheia de nós, dos nossos laços e do espaço que sobra, entrelaçados que ficamos entre os lençóis. E a vontade de flutuar pelos ares, nos teus braços, esquecendo até que tenho medo de altura......


Porque nesse encontro do seu corpo com o meu desejo e do seu desejo com o meu corpo, há essa explosão: DE-LÍRIOS.

(Marla de Queiroz)

P.S.: Esse foi um dos primeiros textos que publiquei neste blog, mas ele combina tanto com essa Lua Cheia e com o meu estado de espírito nessa fase que resolvi trazê-lo aqui pra cima...

P.S.2: Final-de-semana chegando....Lembrem-se: em alguns aspectos, juízo é tudo que nos atrapalha.
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quinta-feira, julho 13, 2006

Belezuras catadas na fala de Felipe...


Marla diz:
Você é o poeta das palavras invisíveis. Um canceriano dramático completamente influenciado pela lua cheia desse inverno...

Felipe diz:
E você sabe como soul e despluga minha guitarra!!!

P.S.: Nós dois num desses momentos boêmios que não têm preço porque o boteco fuleiro não aceita Mastercard...


*

quarta-feira, julho 12, 2006

Um história breve...ou página arrancada de um diário antigo.


Foto:Pedro Flávio

Esse é o início de uma história breve. Terminada. Resumida em tudo. Bem pequenininha.Uma história comum, mas brutalizada pelas palavras. Uma história desencontrada que sucumbiu antes do tempo, antes de tudo.
Essa é quase uma história de amor...dentro de uma página em branco.

Quando ele apareceu foi tomada por uma alegria tão desconhecida que pensou que era amor. Quando ele mergulhou dentro dela pela primeira vez, tinham um mar atrás de si e uma lua gorda, precipitada no final da tarde.O barulho das ondas imitavam trovões e o vermelho-poente esparramava luxúria em seus corpos.Seus dedos entrelaçados afundaram na areia durante o mais comprido gozo.E a mesma felicidade que os despira, também os agasalhara naquele fiapo de noite...

Mas, num dia estragado, ele saiu com passos lentos e largos: deixou pra trás a silhueta dos prédios na diagonal, um resto de sol no mar, a areia suja, alguém correndo lá longe... Foi deixando um cheiro, uma lacuna, saudade por todos os cantos e uma dor oceânica atrás dele pra mergulhar no horizonte seco e calmo. Foi embora deixando a paisagem intacta e alguém despedaçado, com os olhos marejados, contemplando ondas que quebravam violentas _como seus seios estiveram um dia... na boca dele.
"Foi pra bem longe...", pensou... "pra bem longe de todas as minhas pretensões."

Bsb, 2001

(Marla de Queiroz)

terça-feira, julho 11, 2006

Trechos de um diário abandonado 2


Foto:Augusto Peixoto

P.,
(...)E esse diário que não é antigo, mas abandonado. Ficou ali num canto, interrompido bruscamente, no meio não de uma frase, mas de uma palavra, como tudo que ficou pelo caminho relatado dentro dele. Parei porque as minhas frases perderam o ritmo da respiração e restou um grande sufoco .Coisas que eu tentava aliviar com os vários e vários suspiros profundos, a mão no peito. Era um grito abafado. Era dor pungente. Uma angústia latejando de um amor(?) cheio de farpas.Uma vontade de você tão violenta que me deixava trêmula e tola. Ficava tão nervosa contigo ao meu lado que esquecia de ser interessante... e os meus comentários eram sempre sem consistência e o meu humor infantil e bobo... Depois a tentativa de perdoar a mim mesma por tudo: por ter me apaixonado, por não ter te seduzido o bastante, por não conseguir esquecer e, agora, por te dizer essas coisas todas. Mas precisava me livrar disso, sei que precisava (...)

Marla de Queiroz

segunda-feira, julho 10, 2006

Trechos de um diário abandonado...


Foto: Helena

P.,

(...)Ainda adoro você. Não sei por quê. Talvez seja porque o seu olhar me fazia dançar melhor. Ou porque ninguém mais me chegou com um cheiro adocicado no meio da tarde ensolarada, em harmonia com todos os azuis(...)E, atrás dos seus passos largos,no jardim de insônia que você deixou, foi onde melhor escrevi as minhas saudades. Hoje, debaixo do sol e com o mar ao fundo, ainda é por você que eu espero.E se eu pudesse dizer tudo o que já escrevi e calei, seria com uma voz mansa e aveludada: sem os suspiros de horror do início, mas com o mesmo desejo, embora um pouco mais sossegado com o tempo. Tempo que só encheu de poeira sem conseguir apagar(...)

Marla de Queiroz
RJ, 2002.

*(“Terminar é como morrer devagar, sem ninguém por perto”).

* Fernanda Young

sábado, julho 08, 2006

Pergunta


Foto:Nuno Direitinho

Por que esperei tanto tempo se já me sentia pronta?
Porque sou fruta madura que só cai em solos
que tenham melodias harmônicas...
(Marla de Queiroz)

sexta-feira, julho 07, 2006

Resposta à proposta


Foto: Karula


Eu respondi que, intuitivamente, me enfeitei toda pro amor que ele preparou pra mim. Que se ele plantar sementes no meu ventre nascerão crisântemos, gérberas, tulipas, orquídeas,lírios e algum poema inédito.
Que sempre que ele tocar a minha pele com aquela boca carnuda, eu vou me amoldar ao seu corpo feito água no jarro ou me enrolar feito serpente. E que enquanto estivermos de mãos dadas caminhando pelo lado mais ensolarado do dia, nós habitaremos no Eterno.

(Porque coisas assim me fazem acordar, todos os dias, a mulher mais adorável do mundo).


Marla de Queiroz

P.S.: Resposta ao post abaixo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Proposta


Foto: Márcio Alves


Ele disse que preparou esse amor pra ser meu. Quer que eu viva com ele de parir poesia e filhos com nome de flor. Prometeu que quando tocar a minha pele com aquela boca vermelha cheia de carne, vai desabotoar meus sentimentos até me deixar mansa e desajuizada. E que enquanto estivermos de mãos dadas, sempre caminharemos pelo lado mais ensolarado do dia...

(Marla de Queiroz)

quarta-feira, julho 05, 2006

Uma forma de olhar...


O OLHAR
(Manoel de Barros)

Ele era um andarilho.
Ele tinha um olhar cheio de sol
de águas
de árvores
de aves.
Ao passar pela Aldeia
Ele sempre me pareceu a liberdade em trapos.
O silêncio honrava a sua vida.
*
*
*
Essa tempestade, meu amor, é só uma chuva que desabrochou...
(Marla de Queiroz)

segunda-feira, julho 03, 2006

Rio de Janeiro, Brasília...Saudades.



Porque eu adoro escrever na praia que quando tento descrever um dia muito azul digo:
"céu e mar se emendavam..."
Se eu ainda morasse no cerrado, certamente diria:

"este céu amanheceu azul assim só pra destacar o amarelinho daquele ipê..."

( E quando volto do mergulho lambendo o sal dos lábios, sempre lembro que de onde eu venho a água é doce, doce...)

P.S.: Este post nasceu de um texto lindo que a Bela escreveu falando dos ipês de Brasília...Fiquei toda saudosa...