Páginas

sexta-feira, junho 30, 2006

Flor de Cacto

Foto: Maria Ivone Ferreira

“ A bem dizer, ele pouco falasse. Se via que estava apreciando o ar do tempo, calado e sabido, e tudo nele era segurança em si. Eu queria que ele gostasse de mim...”

(Guimarães Rosa_ “ Grande Sertão: Veredas” )

Ele é mais contido, cuidadoso nos gestos, fala pouco e quase não se derrama.
Às vezes a olha cheio de encantamento e, prestes a pronunciar a tal frase de impacto, desiste no primeiro impulso do momento exato.
E quando sai de órbita, escreve um poema sem título.
Ela é doce e ardente, esparramada na fala, exagerada no toque.
E todos os dias negocia com a maneira que ele tem de demonstrar afeto_ nunca é o suficiente.
E do poema inteiro, só presta atenção no título ausente...
Dentro de tantas expectativas, eles seguem se amando desajeitadamente:
Ele de um jeito delicado porque não precisa dela...
Ela, com tantas carências, pensa que o ama loucamente.

(Marla de Queiroz)

*


quarta-feira, junho 28, 2006

Brasil e Ghana...com um pouco mais de emoção e erotismo!


Designers

Para minha amiga linda Juliana Varga que foi sorteada pelo Mastercard e está assistindo aos jogos na Alemanha...

Aquecimento...Eles correm no campo, as mãos dele descobrem meu corpo com a destreza que eles têm pra conduzir a bola com os pés, um giro, um drible, estou sem fôlego, ele me pega com força, estão na nossa área, talvez um chute a gol, ele enrola meu cabelo na mão, o goleiro defende, puxa-os pra trás com uma violência delicada, não machuca, foi só um susto, tiro de meta...

Um, dois gols, quero mais. Ele também. Ninguém se contenta com o gozo de dois gritos apenas, podemos muito.Quero tudo em absoluto, Freud explica, Parreira irrita.Os estampidos de champagnes sendo abertas no meu ventre e o líquido espesso borbulhando no látex...Um gole na cerveja e voltamos pro beijo: o tempo urge, a vida é curta e eu quero o HEXA...Você também?Talvez tenhamos um pouco mais de pressa nesses quarenta e cinco do primeiro tempo, mas gosto da precaução...

Não mudei de titular, os brasileiros reclamam do técnico, adoro sua técnica de tocar no canto certo, de finalizar bem os escanteios. A taça do mundo é nossa, cansados todos, suados e felizes...exausta e mole,agora é só correr pro abraço...Quase saciada e rouca...Oba! Segundo tempo?
Reclamam do toque de mão, eu não. Gosto do jeito que ele toca,pareço um instrumento; desconheço a combinação das notas e as regras do impedimento. Cartão amarelo pra quem? Deixa pra lá, é pro time adversário,tomara que seja expulso enquanto eu vibro em vermelho.
Abre aqui pela direita, FALTA (!), ia meter pela linha de fundo mas preferiu se posicionar na frente.........Falta é criatividade nesse meio de campo, aqui não...Acabem com Ghana, acabe-com-essa-minha-gana!!!Mor-DIDA SALVA OUTRA VEZ!!!!!!!!Que reflexo!!!!O rebote é nosso, a enfiada no meio de campo é sua e lá vem a oportunidade de mais um GOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLL!!!!!Eles correm pro abraço, eu permaneço no seu...
Recomeça a partida, a nossa defesa retoma o lance, posição de perigo, alguém se adianta, lançamento pela linha de fundo......... IMPEDIMENTO!!! Haja coração!.....Soa o apito, toca aqui, toca ali, “que posição legal!” , olho no lance que os meus estão fechados, agora o mérito é do triângulo mágico: “a conseqüência de jogar com gana é muito contato físico!” e o narrador conclui: “o problema é na defesa....” Concordo, as minhas estão todas abertas...
Pronta pra enfiada de bola... olha lá: "na TRAAAVE!!! O espaço é estreito com uma goleira dessas!"
Jogo suado, sofrido, mas muito boa a atuação da equipe e esse seu espetáculo particular.......

Próximo jogo: na minha casa ou na sua?

Resultado: Brasil três pra zerar essa gana_ próxima partida rumo ao HEXA!

Obs: Demitindo Galvão ou a sugerindo uma narração mais emocionante.

terça-feira, junho 27, 2006

Despedida.


Foto: Cláudia Barbosa

Para Grazi.

"...Agora é de novo madrugada.
Mas ao amanhecer eu penso que nós somos os contemporâneos do dia seguinte.
Que o Deus me ajude: estou perdida.
Preciso terrivelmente de você.
Nós temos que ser dois para que o trigo fique alto.
Estou tão grave que vou parar _
Nasci há alguns instantes e estou ofuscada
Os cristais tilintam e faíscam
O trigo está maduro: o pão é repartido
Mas repartido com doçura?É importante saber
Não penso, assim como o diamante não pensa
Brilho toda límpida
Não tenho fome nem sede: sou
Tenho dois olhos que estão abertos
Para o nada
Para o teto
Vou fazer um adágio
Leia devagar e com paz
É um largo afresco.
Nascer é assim:
Os girassóis lentamente viram suas corolas para o sol
O trigo está maduro
O pão é com doçura que se come
Meu impulso se liga ao das raízes das árvores..."
(Clarice Lispector)

Quando ele foi embora não se despediram.Juntou silenciosamente um punhado de coisas e saiu enquanto ela fingia o mais profundo dos sonos. Seu corpo ainda estava quente e nu, sua doçura adormecida e sua alma deserta...
Nem quis olhá-lo fechando a porta para não ser promovida pelo desespero.

(Marla de Queiroz)

segunda-feira, junho 26, 2006

" Algo Teu"

Foto: Helena

Tem jeito não. A lembrança dele me arranca o sono nas madrugadas com a urgência de quem quer o amor mal-feito mesmo, quando eu só precisava descansar da violência das minhas fomes_ daí eu ter posto musiquinha triste pra embalar meu sono.Mas ele me conhece e me acorda assustada com diálogos internos, imaginários ou não,e entra no meu sonho com nome e sobrenome falando das nossas questões mais truncadas com a clareza que eu precisava ao vivo e que não tive. E tudo pela demanda da sua vaidade. Se o que eu queria contar sobre nós dois eu nunca pude, porque não me deixar em paz com a caneta repousada no bloco de papel ao lado? Mas não, ele insiste em me entristecer inutilmente. Invade meus sonhos, bagunça meus planos de viver uma história possível e desanda meus sentimentos já tão enfileirados pro moço que me quer mais que tudo nesse mundo. E ele sussurra, quase que em carne e osso, as palavras mais levianas no meu ouvido.Eu fico esquisita: tem amor tão bonito dentro de mim que não consigo dar ao outro nem desperdiçar com ele. Fico abundante de coisa pra compartilhar sem poder ou querer, e aí é que tudo se complica:

Volto a dormir neste inverno, agasalhada só na saudade, com essa melodia triste, nessa madrugada fria...

sexta-feira, junho 23, 2006

Dica.


Foto: Carlos Sillero

Se você tentar dizer as coisas como eu as digo, isso vai virar um eco insuportável e eu só vou conseguir carecer da tua voz...( Não espero receber textos iguais aos que escrevo).
Eu só quero esta paisagem, os sentimentos desamarrados, um traço firme do teu desenho, uma nota bem tocada no teu contrabaixo, esse beijo bom, teu melhor pedaço de pizza e esse tempo que sobra pra sentir saudade das SUAS especialidades...
Enquanto isso, eu fuço minha memória, bolino a palavra e desenrolo meus textos só pra revisitar cada milímetro da tua pele...

(Marla de Queiroz)

P.S.: Coisa mais linda que o Luiz Antônio Gusmão me explicou, quero compartilhar com vocês:

"bellis lepdoptera perennis":
A tradução, explicação que me pediu: o nome científico da margarida é " bellis perenis" - beleza perene, duradoura, sempre-viva. "lepidoptera" é a ordem à qual pertencem as borboletas. Fiz uma mistura e deu um nome cheio de sílabas labiais, como que pra evocar um leve bater de asas. ; )

quinta-feira, junho 22, 2006

Marlarida


Eu só quero tirar o tom solene que emprego nas coisas tristes e descansar dos meus desamparos para recapitular cada átimo de segundo das milhares de vezes em que fui amplamente acariciada. Quero ser espectadora dos meus extremos e direcionar o meu vulcão interno pra devastação de um lugar em que, depois da destruição, possa haver um vasto reflorestamento. Não quero intimidar com a minha energia nem assustar com o que há de mais frágil em mim. Quero observar sossegada que o orvalho ainda não é chuva e que nem sempre o sol afasta o frio. Que pra luz ser boa ou a sombra inadequada, como numa foto, vai depender da imagem que eu quero reter...

Sei que morar numa cidade grande onde todo mundo vive tão apressado, pode fazer com que a gente se sinta mais carente que eterno.E assim como a solidão pode ser compartilhável ,amar alguém pode ser algo muito mais solitário...Mas só insiste em tropeçar nos próprios passos quem ainda não tem asas...
E eu sou uma MARLArida que virou BorboLETRA!

;-)

(Marla de Queiroz)

*

terça-feira, junho 20, 2006

Sobre o beijo.


Mas o nosso beijo não é só a boca dele se desmanchando na minha, não. Primeiro ele segura meu rosto com as duas mãos, afasta meu cabelo do olho e vai contornando os meus lábios com os dele até desenhar um coração. Depois se demora mordiscando a minha boca oferecida como a uma fruta suculenta e madura. E me olha fundo... mergulhado... bem dentro do meu olhar castanho amolecido....

E as nossas escuridões é que se beijam.

segunda-feira, junho 19, 2006

Clave de Fá...

Foto:Rick X

Teve que ser suave e lento e chegar com calma, falando macio, tocando aos poucos.
Teve que ser leve, lúdico, aconchegante e ensinar algo que eu não sabia.
Teve que ter um abraço grande, um beijo intenso, arriscar um passo de dança e escancarar no sorriso.
Teve que ser sábio e estar sóbrio.
Teve que ser debaixo de um céu indefectível com planetas que imitavam estrelas.
Teve que falar de claves, signos, sonhos e desapegos.
Teve que deixar meu corpo se afundar no dele.
Teve que ser uma brasa doce...


Eu só queria que fosse bom, e foi incrível.

*

*

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 15, 2006

Véspera


Foto: Francisco Capelo

Quando você vier haverá o encontro da sua busca com a minha espera.
E o seu abraço será a moldura do meu corpo.
E a minha boca o pretexto para o seu mais demorado beijo.
E a gente vai brincar de se desmaterializar dentro da música,
de desatar auroras,
de escrever poemas de orvalho...
E eu vou inventar uma madrugada eterna pra quando você tiver que ir embora no dia seguinte.
E você vai inventar um domingo que vai durar pra sempre porque tenho preguiça das segundas-feiras.
E a gente vai rir dessa maldade da demora do tempo pra fazer essa brincadeira de desencontro:
quase nos deixou descrentes...
A gente vai rir dessa maldade porque o nosso amor será a coisa mais bonitinha do mundo...
(Marla de Queiroz)

domingo, junho 11, 2006

Crônica de desamor

Foto: Zé Mário Passos

Passei a manhã tentando esboçar um sentimento por você porque ainda não entendi como funcionam as coisas entre a gente. Entre o querer e a repulsa, suas mãos passeando ansiosas pelo meu corpo, minha boca rejeitando a sua e, no entanto, queremos estar ali, lado a lado, tecendo calores e dúvidas num eterno coito interrompido.E quanto mais você fica mais eu preciso estar só e tranco a porta e o corpo e fico tentando entender esses esboços que eu criei pra enfiar você nos meus dias, essa nuvem densa atravessada nos meus olhos, esse carinho que mais me deixa agoniada que nutrida....Essa saudade extraviada....

Eu sempre estive só e não queria, deixei você se enfiar por entre medos e se instalar num ninho de culpas e denso silêncio que trago por dentro.Agora te rejeito de um jeito e não consigo te abandonar e você, sem querer, vai embora temporariamente só pra me obedecer, mas sofre amarrado aos meus insultos, todo inclinado pro drama e pro desespero e eu não querendo e você estando, cada vez mais atencioso, cada vez mais inseguro, mais carente, mais agarrado à minha cintura, querendo se enfiar entre meus dedos, tão disponível, plantado na palma da minha mão. Fico triste com a capacidade de coisas que tenho coragem de fazer pra te ver chorar.
Porque te sei previsível e pressinto a importância do meu desafeto na narrativa que você criou pra sua vida. E faço questão de confirmar sua descrença e quando penso que você cansou, continua tentando roubar o melhor dos meus verbos, me conjugar num tempo certo quando nem estamos próximos, embora lado a lado...

Não deixei você me penetrar, me tocar por dentro, nem fazer parte da lista de coisas que mais gosto de fazer por mim.Fico inquieta com sua presença, mas preciso SIM da sua resignação e dessa sua falta de amor próprio quando volto pra casa assustada porque tudo deu errado naquele dia...Entenda sobre a minha falta de novidade, de perspectiva, dessa prótese que você se tornou e de como a minha autoflagelação pode ser menos dolorosa já que não consigo me livrar desse sufoco , dessa mania de auto-agressão, já não consigo aceitar a amplidão do quarto vazio, da cama espaçosa.É como um pacto com o vácuo.

(Você não passa de uma metáfora errada que usei pra rasurar o texto, pra enfeitar meu egoísmo, pra insuflar meu ego).

Mas não há desistência de ambas as partes. Você sobrevive de migalhas, viciado que está em maus tratos, convivendo bem com as minhas crueldades e, na sua doença, compactuando com a minha.

Seguiremos juntos até que alguma espécie de amor nos separe.
*
(Marla de Queiroz)
P.S.: Texto baseado em fatos (alheios) reais...Tantos, tantos.
*
*
*

quinta-feira, junho 08, 2006

Notícias minhas...


Ainda que as mudanças sejam lentas e quase imperceptíveis, elas estão ocorrendo...Percebo isso numa inquietação minha em mudar o cabelo, experimentar outro estilo de roupa, escolher lingeries com cores mais alegres... Tenho falado mais manso, dito “não” com mais tranqüilidade quando acho que é o melhor a ser feito no momento...Até praia que antes era um imperativo nos dias de sol, posso recusar se eu achar que dormir até mais tarde ou ficar simplesmente enrolada no edredon feito um charutinho vai me dar mais prazer...Deixar um livro de lado e ver um filme atrás do outro...Abrir mão de uma dieta e comer um doce bom depois do almoço, topar o chope recheado de papos bons com um amigo em plena segunda-feira para que ela fique mais plena ainda...Não responder um e-mail imediatamente porque prefiro escrever algo mais elaborado ...Ser delicada com quem me irrita só pra desconcertar...Nada de muito especial tem me acontecido, tudo tem se movido sem qualquer fiapo de alvoroço ou paixão...Tenho cumprido as tarefas cotidianas, tenho dormido só nas horas em que caio de sono, tenho escrito recadinhos breves com palavras doces pra algumas pessoas só pra fazer um afago simples e não tenho me magoado com silêncios, solitudes e ausências...Às vezes faço uma bijouteria pra exercitar meu lado criativo...E construo frases sem sentido só pra ampliar minhas vivências...E salpico lavanda sobre os lençóis antes de dormir pra acordar recendendo a flores...Não tenho sentido falta do amor romântico, nem de nada que me tire o fôlego...E, embora eu possa me sentir entediada com a aparente falta de novidades, volto a pé do trabalho, pela orla, vendo o mar e prestando atenção nessas tardes frescas quase frias atravessadas por filetes de sol ameno sendo lindamente iluminadas...Vez ou outra esses filetes me atravessam também e meus cabelos explodem em cores incríveis...E continuo andando, indo, indo calmamente como um poente que sorri timidamente...

Caminhando dentro da paisagem, sou simplesmente uma pessoa em meio à multidão, mas toda em tons degradês...

;-)

(Marla de Queiroz)

quinta-feira, junho 01, 2006

Cafuné...



Foto:Marília Campos

Seus dedos
percorrendo a minha nuca
abrem fendas
nos lugares mais improváveis
do meu corpo
e a água
brota da minha boca
como a nascente do desejo
*
*
(Marla de Queiroz)
*
" Ela era simples e mulher, e ele podia rir dela_e como outra forma de rir, ele pela primeira vez acariciou seu rosto, afastou com muita delicadeza a espécie de bandóis entrançados que lhe emolduravam a cara fina. E a cara que apareceu, despida e forte, fê-lo de súbito retirar as mãos como se ele tivesse pisado sem querer no rabo de um bicho."
*
Ainda:
*
" E se não tinha ação, tinha o grande amor.Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente:um homem tinha o grande recurso da altitude. Se não tivesse medo de ser mudo."
( " A Maçã no Escuro"_ Clarice Lispector)
*