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sexta-feira, março 31, 2006

Meu Perfil

Foto:André Basso

(Muita gente já conhece este meu texto, mas eu precisava postá-lo aqui também.)

Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal-resolvido sem soluços.
Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo e não estou aqui pra que vocês gostem de mim, mas pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho e seduzir somente o que me acrescenta.
Tenho uma relação de amor com a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra. A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que quase me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Eu sei chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras e falta de ar....
Eu acredito é em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em gente que fala tocando no outro de alguma forma, no toque mesmo, na voz ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos:
são eles que me dão a dimensão do que sou.
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( Este texto já foi publicado no meu blog antigo e atualmente ele está no meu perfil do orkut).
http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=3401664456464860633

quinta-feira, março 30, 2006

Ausência

Foto: Sweet Charade

Essa paixão esquisita
Esfarelada no verso
Nada tem de efêmera
Só de excesso.
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“Por muito tempo achei que ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. Sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada em meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa assimilada, ninguém a rouba mais de mim”.
( Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, março 29, 2006

Das coisas que ficam


Foto: André

Com você eu aprendi sobre a Dança do Universo e de como alguns outonos são plenos de manhãs indóceis.Aprendi a desatar o choro amolecido na garganta e a enfeitar a casa com flores simples, do campo.

Ingressei em noites sem estrelas iluminadas apenas pela ponta de um cigarro aceso. E amanheci entre borboletas azuis e flores roxas sem nenhum odor, mas com o cheiro de chá de erva cidreira inundando toda a casa.E você vibrava em verde curando as mesmas páginas que feria.

Compartilhei o meu suor íntimo e fértil e tudo nos parecia tão sagrado que eu desviava o meu olhar da dor.E fui me desapegando do desamparo cuidando do manjericão que plantamos juntos: pela primeira vez na vida eu via uma coisa bonita e palpável nascer.

Você me dissertou sobre bichos, plantas e marés.E adormeceu minhas angústias cantarolando aquela música tão desbotada.

Aprendi sobre como a escuridão pode ser suave aos olhos. E de como certas chuvas podem ressecar por dentro.Aprendi a cuidar deste solo seco e a relatar sonhos enquanto abria as janelas da casa. Aprendi a dar outros nomes pro abandono.

Com você eu aprendi que uma bicicleta amarela podia trazer com ela tudo aquilo que mantinha espesso o meu desejo...

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terça-feira, março 28, 2006

João Pinel


Aquele homem chegou neblinado de fumaça e álcool
Com o tempo espichado no rosto
A voz noturna engrossada de outonos e
o olhar arregalado de desavenças com as manhãs.
Cuspia cacos de frases
Botava pontos-finais em vírgulas,
Acentuava sílabas átonas
E tirava o til do Joao.

Aquele homem tinha o espanto primordial naqueles olhos que ele nunca mais desarregalou.


(P.S.:Não soubemos responder como se lapida uma mulher...)

segunda-feira, março 27, 2006

Repetições


Foto:Kathle Katu

Mesmo no que se repete permanece alguma novidade:
A vida, em sua plenitude sexual, ainda conserva a virgindade.

sábado, março 25, 2006

Bilhete


Em cada traço cada gota cada marca cada poro cada pêlo cada um cada uma...
Um beijo no...na...nos...nas...
Assinado:
“ Aquele”.

sexta-feira, março 24, 2006

Relacionamentos



(...)Os grandes relacionamentos que tive foram os que me renderam as melhores metáforas. Que me despertaram uma vontade constante de ser uma pessoa cada vez melhor e mais inteira. Que me deram colo e não conselho e beijo na boca quando o silêncio ainda era a melhor resposta. Algumas dessas pessoas se foram antes que eu pudesse lhes contar uma história bonita e eu chorei feito menina. Outras ficaram até descobrir que uma caixa de quiwís era o melhor presente que eu poderia ganhar no meio de uma tarde triste...Outras, ainda, me cobraram respostas demais e eu só sabia que nunca aprendi a andar de perna de pau porque tenho medo de altura (o que por um lado pode ser também resposta para várias outras coisas). Mas todas essas pessoas me desenvolveram e isso ficou comigo; são minhas porque faziam parte do meu potencial amoroso e elas vieram só pra me conduzir ao melhoramento do meu amor. Hoje o meu grau de exigência aumentou muito porque aprendi que dar amor não é a mesma coisa que dar carência. Por isso fico sozinha pelo tempo que for necessário para ter novamente essa sensação de "encontro". Abandonei um monte de certezas, recuso sem pudor algumas regras e desrespeito várias vezes as placas de aviso de perigo. Me divirto muito ou sofro, mas tenho cada vez mais faisquinhas nos olhos por viver as coisas em sua totalidade, sem recusar experiências e aproveitando diversas possibilidades. O que posso dizer é que existem na vida pessoas sedutoras e seduzíveis por quem nos apaixonaremos "definitivamente" todos os dias e que amaremos "para sempre"... hoje!

Agora, tem uma lado muito romântico meu que diz que a "tal pessoa" virá e enroscará uma margaridinha nos meus cabelos cacheados, fazendo pousar no meu rosto o sorriso de um beija-flor... ;-) e plagiará Neruda sussurrando ao pé do ouvido: "Quero fazer com você, o que a Primavera fez com as cerejeiras..."

( Este post é dedicado ao Henrique...Obrigada pela confiança derramada naquela carta.Hoje é sexta-feira Henrique,e tem sol!!! Sigamos em frente, ensolarados.Um final-de-semana cheio de entusiasmo pra todos nós).

quarta-feira, março 22, 2006

E, no entanto.

Foto:Augusto Peixoto

(Eu tô mexendo nos papéis velhos e nas nossas incompletudes).Escrevi sobre tuas mãos no dia em que o esmalte vermelho descascado parecia gotas de sangue seco em tuas unhas.Você estava triste e, no entanto, sorria: nunca vi tanta amargura revelada num sorriso.(Achei naquelas folhas soltas do caderno abandonado a história áspera de um amor que chegara trazendo angústias; a visão de uma Primavera, toda ela, de flores mortas. Achei o cartão postal, o poema rabiscado em cima da perna num pedaço de guardanapo engordurado).Tuas mãos, tão trêmulas, tantas veias grossas, tuas palmas ásperas, bem me lembro da firmeza com que segurava as coisas, do teu apego, do medo de deixar cair.Você vivia entorpecida passeando pela casa, desarrumando os quartos, esvaziando cinzeiros. Os discos espalhados pela sala.(Uma frase de Drummond naquela foto antiga, a letra ilegível, a frase indecifrável).O sangue seco nas tuas unhas.(Tanta amargura naquela carta.A Primavera de folhas secas e flores mortas).E no entanto, você falava de amor...Tonta,trêmula e ausente segurando as coisas com força, em meio aquele abandono.

No teu sorriso.

Tudo tão frágil.

(E, no entanto).

domingo, março 19, 2006

A PALAVRA


Tua língua
molha a palavra
A palavra
molhada
pregada
em tua língua
brinca
livre
e lúbrica
no corpo
do meu poema...

sexta-feira, março 17, 2006

Janela

Foto: Alexandre P.

Nada de janelas, deixa a casa aberta
Pro sorriso dela essa casa perfumar
Madrugada chegou sem vc aqui
Vc não entende nada do que eu digo
Amanhã pode ser que a saudade vá embora

Nada faz sentido
Se nós nos entendemos ou não, tanto faz
Fala mais comigo, fica do meu lado
Não vá embora nunca mais

Que eu me encanto com tua presença
Ontem mesmo eu sonhei contigo
Me contando uma história colorida
Sob um céu azul de vidro...

(música e letra: Daniel Gonzaga)


Hoje eu vou dançar pra vc a música que eu inventei pra mim...

(Finalmente sexta-feira...Ainda é Lua Cheia...Estou vibrando em vermelho trêmulo...Vai ser lindo!Depois eu conto.)


quinta-feira, março 16, 2006

Um Momento

Foto: Paulo Medeiros

" Era alguma coisa que seria amor ou não seria. Caberia a ela, entre milhares de segundos, dar a leve ênfase de que o amor apenas carecia para ser..."
( Clarice Lispector, quem mais?)

E há o momento. Há aquele momento em que na confusão da noite, no meio da festa, entre um gole e outro de cerveja, numa frase específica de uma música qualquer que diga exatamente o que se passou, há aquele momento único e quase solitário em que dançamos de olhos fechados com nossas dúvidas e dívidas de resolução. Há nisso tudo um momento ínfimo de silêncio interior onde oscilamos entre milésimos de segundos se escolheremos o sim ou o não, o ir-se ou deixar-se ficar, olhar firme ou desviar o desejo contido na retina, afastar-se pra olhar de longe ou deixar-se encostar e atravessar com o calor da vontade os tecidos do outro corpo num leve roçar de braços...

E quase sempre a escolha é a mesma: saimos correndo, querendo, resistindo, assustados demais com o que poderia acontecer de bom, revestidos com nossas capas de chuva, impermeáveis pra qualquer tipo de coisa boa que possa doer depois... Saimos correndo dramáticos, previsíveis, entorpecidos de álcool, solidão e nossas inúmeras lacunas acumuladas. Saimos correndo de medo, dentro da noite de frio espesso ou calor abafado, de desejo gordo, escolhendo o desencontro com uma expressão reticente no rosto e nossos corações tumultuados de ausências............................................................................................

quarta-feira, março 15, 2006

Enigma


Deslize

No toque
-o choque-
no olhar-se nua...
O espelho embaçado,
velho pedaço,
com cheiro de carne crua...
A mão escorre,
na curva certa
-certo vazio-
onde o desejo morre
e brinca o cio...
(Cida Sousa)

Se eu posso me alimentar de tantas outras coisas,
não sei por que
insisto em devorar
minhas próprias entranhas...
Elas nem são do tamanho da minha fome.

(Mas talvez sejam do tamanho do meu medo...)

terça-feira, março 14, 2006

NUA


Eu lia. Lia Caio alternando com Clarice,revisitava também trechos da Ana C., da Hilda, e cadernos antigos com anotações soltas, sem um texto pronto pra ser dono...
Nua, o ventilador ligado, a lua me enchendo de apetites desordenados e eu lendo ávida, em cima da cama com o livro apoiado entre as pernas dobradas...
O bico do seio apontava pro trecho:


"(...)Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas".


Nua...A literatura era o meu único adereço.

segunda-feira, março 13, 2006

SIM.


"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão".

(Carlos Drummond de Andrade)


SIM!
Eu disse SIM duas vezes com o medo escondido entre os dentes.
A garganta seca e eu não sabendo dizer uma palavra maior que aquela, urgente.
Então eu disse SIM.
Só isso...

Os olhos atormentados com a claridade do peito se abrindo,
procuravam uma névoa seca que os deixasse abertos, sorrindo.

Eu disse SIM e não TALVEZ,
eu disse SIM e não QUEM SABE,
eu disse SIM e não MAIS TARDE.

Tinha que ser naquela hora, aquele SIM.
Então eu disse.

E nunca mais consegui dormir com aquela manhã brotada do sol aceso em mim.

SIM, sim...Duas vezes, foi o que eu disse.
E era o SIM preenchendo a boca,
o medo arranhando a garganta com força,
o SIM vibrando nas cordas vocais.

Eu disse: “ SIM, vou-explorar-todos-os-teus-pontos-cardeais”.

domingo, março 12, 2006

"Propulsor Melancólico"



Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

(Paulo Leminski)

Foto: Catarina Cruz



Eu poderia te dizer o que vou escrever agora, mas... eu fico bem mais bonita quando escrevo:
Percebi, depois de uma noite inteira de total entrega, que nada de essencial foi atingido. Uma falsa intimidade permeava os lençóis do quarto onde eu, amante clandestina sem ter tido escolha, tive uma trepada homérica com a própria Noite que amanheceu comigo. Uma trepada cheia de detalhes, mas secreta. Mal sabia eu que enquanto me despia, simultaneamente, estava sendo vestida de abandono.

O que restou de todo aquele suor? Apenas o gosto de sal na boca.

Amanheci sem nenhum artifício, sem nenhuma intimidade com quem colheu os meus frutos sensuais por toda a noite. E ele amanheceu comigo e me conheceu também naquela hora do dia em que não sou interessante: sou apenas um amontoado de irritante bom humor e palavras básicas e funcionais que me inserem numa rotina.

Fechamos a manhã com um ponto e vírgula. Nos encontramos mais tarde depois de combinarmos nosso desencontro. Eu, fisicamente cansada e com uma alegria suspensa; ele, com aquele ar de saciedade que beira o fastio: ele estava plantado no ponto de partida de onde fomos embora antes de chegar...

Fomos embora do lugar em que estávamos. Fomos embora juntos da nossa história. Quando fechei a porta do carro, deixei no banco vazio o casaco de desejos que ele, friamente, teceu pra mim. Saí quase nua, embrulhada apenas em algumas palavras balbuciadas com desinteresse. Tive que ir embora antes de ter tempo de mudar a expressão do rosto, embora eu estivesse completamente disposta a ser surpreendida. E o que parecia ter muita luz, escureceu com sua sombra um dia inteirinho de sol e céu azul bem no início do outono.

Era domingo. Era dia anoitecido. Era só mais um adeus. E o vinho tinto encorpava a dor.

(Texto republicado)

sábado, março 11, 2006

Divagações


Foto Antonio Manuel Pinto da Silva

" Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.Tenho me fatigado tanto todos os dias vestindo, despindo e arrastando amor, infância, sóis e sombras".
( Hilda Hilst)

Daquele livro de poemas, meu amor,restou a florzinha esmagada entre as páginas.Só descobri quando mudei o capítulo que falava das janelas abertas, janelas tão escancaradas que a casa amanheceu alagada com a chuva noturna...
Ainda acordo com aquele aperto no peito. Tenho que parar de tomar tanto café, eu sei...
Ninguém prestou atenção em nós...
Vc ainda tem aquela música nos seus arquivos?Eu nunca dancei pra vc...
Posso?
Por que eu escrevo a nossa história em itálico? Porque as letras ficam deitadinhas umas sobre as outras,é mais romântico.
Do sábado eu gosto, falo mal dos domingos.

A saudade? É a florzinha esmagada entre as páginas.

EU? (...) Sou esta reticência entre parênteses.

sexta-feira, março 10, 2006

Céu (da boca) de Brigadeiro


Para adoçar a vida e a abóbada palatina: o céu (da boca)de brigadeiro...

Têm dias em que acordo simples e tudo flui...
Porque sou transitoriamente dramática e acordo feliz e renovada depois que choro.
E hoje é sexta-feira, o dia está perfumado de sol e todo enfeitado com esse céu de brigadeiro...
(Ontem eu estava AMAR-GA...Hoje, AMAR-ULA!!!)

A vida sempre me presenteia com ela mesma.

E só pra não perder o hábito:

"Sol, s.m.:Quem tira a roupa da manhã e acende o mar
Quem assanha as formigas e os touros..."
(Manoel de Barros, é claro!)

Um final-de-semana cheio de doces surpresas a todos.


quinta-feira, março 09, 2006

TALVEZ




"Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que me contorça toda. Os fatos da vida são o limão na ostra?"

( Clarice Lispector_ "Água Viva"pág.36)

O post de hoje segue aí embaixo...






Acordei terrivelmente ácida,melancólica, precisando intimamente de colo e de alguma mordomia emocional...Uma sensação de fracasso, de estar esperando, esperando pela coisa errada;esperando ser salva pela palavra, tentando me equilibrar em cima de uma caneta bic...Sei lá, tem muita coisa misturada.
Esse texto foi escrito há alguns anos e escolhi postá-lo aqui porque nenhum outro descreveria tão bem o meu desconforto de hoje.Ele é longo, mas é fluido.Vcs podem começar a ler hoje pra terminar no domingo...rs.






TALVEZ

... Talvez a verdadeira intimidade eu só tenha buscado com as palavras. E eu me entupi delas no momento em que poderia estar aprendendo alguma coisa com alguém. Talvez eu aprenda a ser mais silenciosa; a usar palavras menos aflitas, a falar mais com o olhar. Porque me entupindo de palavras eu me defendo cuspindo-as em alguém que tente uma aproximação.

Faço um muro de palavras entre mim e as pessoas. Sou autoexplicativa só pra confundir.

Talvez eu tenha nascido para uma vida desapaixonada e culta. Talvez eu nunca tenha olhado verdadeiramente o outro; e só tenha visto o texto pronto que criei acreditando nele. Talvez eu não conheça o que julgava ter acesso cognitivo. E isso me entupiu de certezas que eu não soube abandonar ao longo do caminho.

Uso palavras para não sofrer, para plagiar uma dor, pra fingir que sou leve e que está tudo bem. Uso palavras pra falar de uma chuva que talvez eu não conheça porque não me permiti ficar encharcada dela. E ela virou a metáfora de um relacionamento_ o que pode ser tristemente poético.

Talvez eu só tenha sentido saudade pra falar de outras coisas. Pra usar a palavra "saudade" mesmo, que eu adoro. Acho que estou muito cansada. Falei demais das coisas e , no entanto, não toquei verdadeiramente em nada. Observei e descrevi, cheia de filtros semânticos. Dentro da minha limitação eu interpretei o Universo para que eu coubesse nele, em mim. E alienei as pessoas dentro de conceitos. E arranjei um sentimento pra cada coisa. E pensei que assim, tudo estaria em ordem, sob controle.

Eu que me julgava não julgadora, me considerava livre, agora tendo que empurrar as grades dessa prisão de certezas que criei pra mim. Sem poder culpar ninguém. Usando um discurso de alguém que não quer magoar o outro pra descobrir que no fundo só me importei comigo mesma e com os meus medos. Não deixei que o outro experimentasse o que havia de melhor ou de pior em mim. Não deixei que ele escolhesse.Mantive o muro de palavras e o meu discurso pronto pra continuar a salvo do outro lado. Eu que sempre falei de pontes...

Talvez eu seja uma farsa. Talvez eu seja virtualmente inacessível. Alguém que se entope de adjetivos pra entender as coisas e dizer que não se preocupa em entender nada. Eu que sempre falei de amor, não amei o outro em toda a dimensão da pessoa que ele é. Talvez eu tenha me preocupado mais com as vírgulas que não usei nas cartas de amor que escrevi que com as pessoas que as receberam e que se julgaram amadas. Talvez eu só tenha dançado pra fingir que gostava de música. Talvez eu só tenha bebido pra fazer parte de um círculo social. Talvez eu só tenha aceitado certas coisas pra poder ser chamada de amiga_ e usei levianamente a palavra amizade.Talvez eu tenha me apaixonado diversas vezes pra fazer parte do círculo de pessoas que sorriem diferente porque estão amando_ e sofri as carências que intercalam as paixões como se fossem reais. Talvez eu tenha rompido relações pra escrever cartas de despedida e mostrar como eu dominava a dor ao escrevê-la. Talvez eu só tenha experimentado as relações dentro da literatura.

Acho que estou realmente cansada. Falei demais sobre tudo e continuo no escuro. E a minha recusa em tocar nas coisas me impede de sair tateando em direção à luz. E mais uma vez eu uso palavras pra tentar me defender de algo, de mim.Talvez eu precise parar de ler Clarice Lispector... Talvez eu devesse escrever uma carta em branco pra dizer que quero silenciar: que se o silêncio ainda estiver esperando por mim, eu aceito. Preciso esquecer as palavras, preciso me despedir delas para começar a experimentar a vida com honestidade. Talvez silenciando eu consiga ser mais honesta com você. Eu que precisei escrever tanto pra dizer isto: que preciso silenciar.

Talvez eu só tenha escrito isso tudo pra conseguir chorar... E usar a palavra "talvez" pode ser o início do abandono de tantas certezas; o início do uso mais corriqueiro da frase “eu não sei".

Talvez isso seja um começo de alguma coisa;
Talvez isso seja um fim.
Talvez sejam apenas hormônios do período menstrual...
Mas isso tudo se parece muito com tristeza...
EU NÃO SEI.


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( E no meio desse incômodo todo, recebi um afago,um buquê de elogios...Está aqui: http://brunomarks.blogspot.com/
Bruno querido, vc sabe da eternidade tatuada no que vivemos juntos..."Coisas que só o coração pode entender!"Amo vc.)

quarta-feira, março 08, 2006

Foto: Graça

“Já rasguei meu útero
Adulterei meus genes
Dilacerei minhas mãos em versos
(Suei em minha pele)
Ralei-me em células, linfas e libélulas...

Agora não sei mais
Sou teu homem ou tua mulher.”

Esse poema amanheceu na lembrança de alguém que não sabe até onde ele é um fragmento da memória, poesia roubada ou nascida no sopro. A única coisa que se sabe é que ele chegou até mim como um vaga-lume aceso pousado no peito_dessas delicadezas cotidianas que enfeitam uma semana inteira.

(Para as mulheres da minha vida e para o homem dos meus versos,
as donas das minhas mais doces euforias e o senhor dos meus melhores adjetivos...
Parceiras de copo, devaneios e enloucrescimento;

Parceiro de copo, devaneios e reformas.
Enfim, para vocês que me ajudam a CRESCER,FLUTUAR e a DELIRAR LINDAMENTE!)

terça-feira, março 07, 2006

Síntese






NO CORPO

De que vale tentar reconstruir com palavras

O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.


(Ferreira Gullar)


A rua se enchendo de gente, o buquê de flores falsas, a viagem pra cidade dos casacos coloridos, o fim do namoro, a saudade das sensações (não das pessoas).
O grito contido no olhar pela decisão tão postergada, a angústia silenciosa antes do surto, a gargalhada brotada do peito depois do susto;
e esse choro por dentro, a voz que falha quando engasga na fala e não alcança o sentimento,
E o arco-íris diluído no copo,
O poema escrito no corpo
E o amor preenchendo a cena enquanto nos embriagamos de lirismo...

Eu tinha trinta e sete citações literárias pra fazer entre as risadas;

eu tentava desfazer toda a tensão do vento.
E tinha guardado dentro de cada manga um escândalo, uma piada e um plágio.
Você com suas histórias, eu com as minhas fontes e esse meu jeito de ir olhando as coisas por dentro com cara de sono.

Um dia começaremos por onde sempre terminamos:

cantando animadamente trechos tristes de Roberto Carlos e Paulo Diniz
fazendo as curvas da estrada de Santos nas esquinas do Rio de Janeiro ou tomando um chope pra distrair;
E sempre indo embora lúbricos, costurando com os pés

nossos caminhos de areia e asfalto.

(Este post é dedicado ao Meu Preto, Felipe e a minha "Gotinhas de Som", Simone...Por tudo que vcs me trazem de lindo e de lúdico, por tudo que vcs são e pelo que somos juntos).

segunda-feira, março 06, 2006

Casa Pré-Fabricada

Foto: Catarina Cruz

Casa Pré-Fabricada

(Marcelo Camelo)

Abre os teus armários. Eu estou a te esperar para ver deitar os sol sobre os teus braços castos.Cobre a culpa vã ... até amanhã eu vou ficar e fazer do teu sorriso um abrigo.

Canta que é no canto que eu vou chegar.Canta o teu encanto que é pra me encantar.Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você. Que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão. Nesta espera o mundo gira em linhas tortas.Abre essa janela, primavera quer entrar pra fazer da nossa voz uma só nota.

Canto que é de canto que eu vou chegar.Canto e toco um tanto que é pra te encantar.Canto para mim qualquer coisa assim sobre você que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.


"(...)Posso nunca usar dicionários,
mas já encontrei teu paladar léxico
e te deixei parada por alguns segundos..."

(Marco Aurélio Guiotti)

domingo, março 05, 2006

DOMINGO



"(...)Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco. (19-20)"

( Clarice Lispector_ "Água Viva")

Foto: Paulo Medeiros

sábado, março 04, 2006

DESEJO


Foto Paulo Medeiros

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

( Hilda Hilst_ "Do Desejo" - 1992)

E para te sentir, só é preciso que eu me toque...

sexta-feira, março 03, 2006

Simplicidade



Eu queria poder desenhar algo que não esta casa com três pessoas ao lado de fora perto da árvore que ocupa quase todo o espaço da folha e aquelas nuvens gordas atravessadas por riscos que imitam gaivotas e sempre o mesmo azul no céu...

Nos meus desenhos infantis (que não evoluíram com a minha idade) nenhum dos meus personagens tinham os pés_ o que mais tarde alguém que dizia ter lido tudo sobre Freud desvendou pra minha mãe:
"Ela acha que todos os membros da família são pessoas incompletas..."
Nunca pensei que se tivesse que ler Freud pra descobrir uma obviedade dessas. Na época eu não entendi, hoje percebo que quando criança eu já possuía minhas pequenas sabedorias.
Tenho uma outra interpretação: talvez a falta dos pés fosse só uma forma de dizer que a incógnita pra mim eram os caminhos...ou, simplesmente,a dificuldade mesma que eu sempre tive para desenhá-los.

(P.S.: Você é tão permeado de angústias
e no entanto, tem tanta doçura no olhar
que mesmo se eu pudesse, jamais quereria te magoar...)


Uma sexta-feira prazerosa e inspiradora a todos!

quinta-feira, março 02, 2006

Então,


Foto: Graça


Apertou o meu braço me encharcando de luz com os olhos dele. Mexeu nos espaços vazios menos visíveis do meu corpo, encheu meus compartimentos fechados de sentimentos que não me couberam nas mãos em concha. Esperei inutilmente que o tempo o levasse de mim. Foi tão inútil esperar quanto pensar que o veria e que não o beijaria novamente. Aquela boca Bourbon sem batom. Foi tão inútil, meu deus, pensar que seria tarde demais se o que havia era um pedaço de tempo, de qualquer hora propícia pra não resistir ao beijo que ele fingiu roubar e que eu fingi que não dei. Depois saí atordoada vestida de desejos urgentes. Havia um céu negro, uma multidão de pessoas ao fundo e ele lá, destacado no meio daquela gente sem brilho, ele destacado, completamente sobressalente. "Senti saudades de vc. Senti muita saudade de vc.", ele disse sem saber da minha falta, da ausência quase dolorosa, da minha procura por ele que começava sempre às vésperas da sua chegada rápida em que não é necessário nem desfazer as malas. Ele me desabotoando sem saber, abrindo o zíper do meu peito sem querer e eu fingindo, fingido que estava tudo como sempre esteve enquanto um cataclismo desarrumava os meus órgãos internos.Ele sempre tão bonito. Tão bonito, meu deus. E eu o adorava, adorava ele com suas pequenas mentiras, suas poucas histórias, textos curtos, frases breves e um sorriso constante. No meio da madrugada, daquela gente toda e ele sempre se destacando, chamando a minha atenção pro proibido, pro contestável, refutando uma a uma as minhas convicções. Acordou em mim tudo que dormia ou estava sonolento. Fez emergir o que eu guardava pra sentir depois da chuva.

Ele insuportavelmente sedutor ...Eu docemente pornográfica.

P.S.1:A foto acima é uma homenagem ao bloco de carnaval "ABANA QUE EU GOSTO".
P.S.2:Vou republicar aqui alguns dos textos que mais gosto e que estào abandonados no blog antigo.
P.S.3:Sem "minha casa" por perto sou uma SEM TETO!!!hahahaha...Saudade o tempo todo.

quarta-feira, março 01, 2006

Dicionário dos Corpos (trecho de carta)*


Foto Antonio Manuel Pinto da Silva
(...)Tenho medo de usar palavras pra falar de coisas essenciais. Elas nos limitam e podem, muitas vezes, ressecar o que antes era úmido e fértil. Então é com profundo silêncio que abrirei uma gavetinha da memória pra compartilhar nesse papel colorido um cheiro, um calor, algum momento. Não quero que a mente abafe com seus ruídos agudos o que é tão silenciosamente bom. Embora a saudade tenha seus ecos.

Mas como posso falar, sem que algo me escape, das digitais que permanecem no corpo que foi tocado demoradamente?! Como relatar os caminhos secretos que um beijo pode percorrer?! Da carícia tatuada, do calor que permaneceu depois do abraço, o que pode ser dito sobre eles?! Qual verbo desconhecido, qual palavra inédita relataria a sintonia, a sincronicidade de corpos que se unem explodindo em gozo?! Qual metáfora ainda não foi usada pra dizer do orgasmo vindo tornando finda a dor do desejo reprimido?!
Não, essas coisas não podem ser ditas, mas sentidas e compartilhadas naquele momento único e quase solitário. Coisas que cada um traz pra sua vida com uma maior ou menor importância.São vocábulos só existentes no dicionário dos corpos, pra compreensão dos gestos... Silenciosamente os corpos se entendem. O resto... O resto fica subentendido.

*(Esse texto já foi publicado no meu blog antigo).