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quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O Lápis


O LÁPIS

É por demais de grande a natureza de Deus.
Eu queria fazer para mim uma naturezinha
particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu
lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do
meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas
para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para
compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no
fundo corresse um rio.
Na verdade na verdade a coisa mais importante
que eu desejava era o rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo
dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha
particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

(Manoel de Barros_ "Poemas Rupestres")

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Ainda sobre o Tempo...


PÊSSEGO

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine
entrava em orgasmo.
Se diz que:
O olhar de voyeur
tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor
se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

(Manoel de Barros_ "Poemas Rupestres")

Porque a saudade chega como aquela cor vermelha que colore apenas os sapatos da foto em preto e branco.
E o tempo passou...mas não o suficiente.


(Uma visita, um blecaute, uma chuva intensa durante, música alta, e a meninice, e o calor bom, e o sossego provisório da carne acesa. Da carne...)

terça-feira, fevereiro 21, 2006

O Tempo...e o vento.


"O tempo passou. Dizem que o tempo é remédio pra tudo. O tempo faz a gente esquecer. Há pessoas que esquecem depressa. Outras apenas fingem que não se lembram mais."

(Érico Veríssimo_ “ O Tempo e o Vento”, O CONTINENTE, Tomo II)

Desfiando saudades óbvias...
Carecendo de uma novidade, de algum carboidrato
E de uma tarde de trocas literárias com alto teor alcóolico...
Mas a semana é de gozo contido_um gemido abafado pelo travesseiro...

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Embriaguez...


"Acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido".
(Paulo Leminski)


Ando embriagada de escassez e farta de diagnósticos e placebos para as questões irremediáveis...
Ainda reclusa, encolhida, absorta nas minhas leituras e mergulhada no paradoxo:
Este mar de águas-vivas-mortas...

(E esta semana será de muitas privações,todas necessárias.E eu que gosto tanto da abundância...)

Que vcs tenham uma semana de luz e aconchego, alegria e um coração sossegado...
Ou com suaves taquicardias...;-)

“Sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar...”
(Djavan)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Trechos de Carta...


Este post são trechos de uma carta escrita pelo Caio Fernando Abreu que poderia ter sido escrita por mim (pelo menos intencional e mentalmente, rs)...É linda, honesta e profunda de doer...

(No mais, ando sem muita inspiração, acho que "tô me guardando pra quando o carnaval chegar..."Final-de-semana vai ser de muito sol, a cidade está abarrotada de gente, tem o tão esperado show dos Stones aqui pertinho de casa, vários amigos de outros Estados invadindo o Rio...Tudo indica que teremos uma sucessão de dias In-ten-sos...
Bom final-de-semana pra todos_paz, amor e um pouquinho de sacanagem.
Bebam muita água! Hahahahahaha......)

“(...) Não era nada com vc. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre vc tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência.
E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça.Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também.
(...) Discutia tanto com Ana Cristina César, antes que ela acolhesse a morte: nossa necessidade fresca e neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado e Solitário para escrever Belos Textos Literários.
O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagem, palavras. O não-real, o não-palpável.Vc me dizia “que diferença entre vc e um livro seu”. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.
Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano demais (...) Não sei se em algum momento cheguei a ver vc como Outra Pessoa, ou, o tempo todo como Uma Possibilidade de Resolver a Minha Carência.Estou tentando ser honesto e limpo. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções. Fico tomado de paixão.
Há tempos não ficava.
(...) De repente me passa pela cabeça que vc pode estar detestando tudo isto, e achando longo e choroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir.
(...) Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos...Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem.
Estou te querendo muito bem neste minuto.Tinha vontade que vc estivesse aqui eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas.
Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Vc é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração e axé. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para vc, para mim.
P.S.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem vc nem eu somos descartáveis.
E amanhã tem sol!"


(Sugiro um Roberto Carlos "das antigas"ao fundo...)

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Ainda com Ana C.


"Digamos que um dia vc percebesse que os seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão. Digamos que vc percebesse que 40% de álcool apenas te garantiam emoção concentrada como sopa Knorr, arriscando o telefonema internacional que dá margens a suores contrariando o I Ching que manda que eu me cale, ou diga pouco, ou pelo menos respeite esse silêncio."
( Ana Cristina César_ "A Teus Pés")

terça-feira, fevereiro 14, 2006

E por falar em dor...


Foto Sig Pereira

"Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
na gengivas."
(Ana Cristina César_ "A Teus Pés")

Quando a dor aguda crava suas unhas em meu pescoço
me atingindo os ossos e se espalhando pelo meu sangue feito um veneno,
Quando meu coração de tão confrangido explode feito
uma maçã na boca,
Eu peço à Palavra que me dê o seu poder de relatar ou inventar belezas
ou uma delicadeza qualquer que surpreenda e faça sorrir_
Como um hai kai escrito na pétala mais macia
da minha flor predileta
ou na minha lágrima mais gorda...

(Peço ao menos, um jeito seco e simples de encontrar consolo quando me afagam dizendo:“Vai passar, vai passar...”)

Quarta-feira é o dia mais neutro, mais libriano da semana...Não fosse esta Lua Cheia bagunçando os hormônios da gente.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Quietude


Foto:Catarina Cruz
"Para encontrar o azul eu uso pássaros
As letras fizeram-se para frases."
(Machado de Assis)

Quieta, silenciosa, transitando lentamente pela casa, habitando o POR DENTRO amplamente. Organizando meus livros, minhas gavetas internas, desarrumando outros espaços que de tão organizados me impossibilitavam novas manobras. Ouvindo outras músicas, conhecendo outros ritmos, respeitando o meu. Que me importa se é quase carnaval e todos os blocos estão na rua? Quero é o aconchego da quietude, da minha cama quente, o barulhinho frenético do teclado do meu computador. E essa musiquinha calma que me embala, sussurra. Nada grita, nada desagrada, não há desconforto; apenas estou quieta, observando, percebendo outras sensações que não as já tão conhecidas. Comendo quando tenho fome, dormindo quando sinto sono, lendo pra me alimentar do que gosto, escrevendo quando posso, enfim, desfrutando o aconchego do meu próprio colo...Falando pouco, um pouco séria, mas a minha alegria ainda impera, permeia tudo, o estado é de contentamento.
Se estou muito quieta e se recuso todos os convites para a pré-folia, não se incomodem, é a paz instalada no peito, e eu me fazendo a melhor das companhias...Claro que vasculhando tudo encontrei muitos fantasmas, mas, acreditem, existem muitos fantasmas bons.
(E me lembro do que escrevi pra alguém que um dia estava passando por um momento semelhante: que mãos vazias ainda são as melhores para se colher flores...)

Lua Cheia que esvazia gente... mexida como as marés...

(Elenita, minha irmão de alma, pensei em vc hoje com meu coração apertado, sabia que havia algo doendo aí, mas não sabia o que era.Sei que nada pode ser dito que acalme seu coração, mas tenha certeza que enquanto houver esse desassossego e essa dor inimaginável embargando tua voz, cada pulsação do meu coração será um pedido de força e aconchego pra ti.E, quem sabe um dia, eu consiga inventar um lugar pra te dar,onde vc possa descansar dessa saudade e se embriagar de amor até sentir aquele arrepio bom de bem-estar...Te amo.)

Palavras Ausentes


Foto by Catarina Cruz

"Só uso a palavra pra compor meus silêncios..."
(Manoel de Barros)

domingo, fevereiro 12, 2006

Pressentimentos


“E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem”...
( Clarice Lispector, é claro!)

Dentro de uma febre alta, rara e emocional, com a visão turva e embaçada, eu vejo mais do que posso suportar... Ando tropeçando em vírgulas em gente em absurdos.
Enquanto isso, grandes ondas lambem tudo que é vida, tudo que está na vida. Tempo de libertação e um punhado de dor: necessárias.
Não restará pseudo-amor nem semideuses, mas “os deuses que fizeram da loucura uma forma de entender”.
Não corrijo mais rasuras, o movimento está no erro. Não condeno mais a forma, ela só relata o caos_ e o enfatiza, o consolida, o engrandece...

(Aí, quando vc está bem quietinha e já cheio de intimidade com o silêncio, aparece uma pessoa com duas garrafas de elixir da criatividade, faz um macarrão ao molho de “ tudo-que-tem-de-mais-calórico-na-geladeira”, te presenteia com música, te nutre,ouve, ensina, cuida, diverte e dorme ao teu lado...
Hoje é o típico domingo cheio de silêncio deitado pelos quartos em que a casa parece vazia e a cidade também. O elevador não sobe nem desce, fica parado em algum lugar sem gente dentro dele. E se vc coloca uma música para tocar, ela entra num buraco e escorrega não sei pra onde. Fica só um barulhinho de coisa escorregando).

Amanhã é Lua Cheia...Semana de revelações e coisas grandiosas acontecerem...

sábado, fevereiro 11, 2006

Desaceleração


“De tão bobas tristezas, a gente se ria, no friinho de entrechuvas...”
(Guimarães Rosa_ “Grande Sertão: Veredas”)

Se eu inventei essa história,
Vc desenvolveu todo o roteiro
Então me tire o sono,
Não o sossego
E me dê alguma certeza,
Não essa esperança já tão desanimada...

(Sábado submerso em água...E todo mundo querendo botar o bloco na rua...A minha TV pifou, fui devolver os DVDs que não pude assistir: voltei da locadora com uma TV emprestada e mais 4 DVDs de brinde...hahahaha...Abri o vinho, abracei Manoel de Barros que me contou que seu olhar pra baixo vem de suas ancestralidades machucadas: fiquei com uma exclamação enorme pregada à cara.Dostoiévski tá me paquerando há tempos, acho que até amanhã eu o pego de jeito.Clarice Lispector anda meio enciumada com as minhas aventuras literárias.No mais,incenso e trilha sonora da Amèlie Poulan pra dar mais aconchego.E quem sabe, falando com jeito, São Pedro dê uma trégua e a meteorologia caia em descrédito!).

Muita luz a todos!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Resposta...




_"Espero que não esteja rindo das "bobagens" que eu escrevo..."

_Rir???Eu toco nas letrinhas, uma a uma, encosto nesse frio monitor e ainda posso sentir a coisa toda quente, em carne viva...Vc escolheu a pior pessoa pra lê-lo impune e levianamente. Fico tão proprietária dos teus versos...
Eu te pedi alguns poemas, vc me mandou um punhado de terra fofa, revirada e fértil, cheia de sementes abstratas e de coisas íntimas que eu respeito e guardo feito um segredo...Fico com o que li sobre o colo, digerindo, destrinchando, namorando uma palavra aqui e acolá e o que algumas delas juntas foram capazes de provocar...
(Sôo sempre dramática quando faço comentários...É que leio com as veias grossas do pescoço saltadas, azuis...)

Tudo que vem de vc é tão bonito...

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Espera


Eu não espero nada de vc...
Eu espero por vc.
Se a paciência foi inventada pra isso
É pra isso que ela vai servir então.
E quando vc vier, num dia de chuva azul
Ou sol vermelho
Ou dentro de uma noite absoluta
Eu estarei com as duas mãos no colo,
Uma expressão serena
E cheia de segredos ardentes pra te contar.
Mas não quero assustar vc,
Quero que fique totalmente à vontade pra começar
Tirando as presilhas do meu cabelo
Esparramando-os sobre todos os poemas
que vc não escreveu pra mim...
Ainda.

Dúvida



Sou auto-explicativa só pra confundir...

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Falta de Assunto...


“ Que é, Meu Deus, o para sempre_ o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma_, o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas...”
(Lúcio Cardoso_ “ Crônica da Casa Assassinada”)

Tão agarrada ao cotidiano e cheia de um calor doido que só o que brota de dentro é suor... Comecei a ler um livro que me indicaram: “ Crônica da casa Assassinada” e já tive um impacto tão forte na primeira página que deixei pra começar direito depois da janta, do banho, do telefonema pendente, da troca da roupa de cama. Aí eu ligo a luminária, desligo o som, pego meu lápis e posso me impressionar e mergulhar à vontade até dar sono. Se é que se consegue dormir depois que a alma se inquieta. Nenhuma novidadezinha pra escrever. Nenhuma solitudezinha pra virar texto, nenhum grande entusiasmo. Acho que é a vida dando uma folga, um certo sossego pra eu poder ser mais prática que romântica por algum tempo. No meio disso tudo, sou eu e meus rituais, minha yoga, minha reeducação constante do pensamento. À propósito, depois que a gente fica atento ao que pensa e começa a reelaborar e a respeitar e temer as narrativas que criamos pra vivermos, às palavras que proferimos diária e inconscientemente, vai dando uma vontade tão grande de ser uma boa pessoa consigo e com os outros, que pequenos milagres acontecem a todo instante. Sem contar que a nossa intuição vira uma espécie de vidência...Chega a ser engraçado: vc pensa numa pessoa e ela te liga porque lembrou de vc subitamente...( hahahahaha....acreditem ou não, isso acabou de acontecer!)E por aí vai.
No mais, sou eu, o calor, o livro novo por começar e a minha falta de assunto...
É por isso que a gente fala do tempo, né?

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Guimarães Rosa


“Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...”

“Ah, naquela hora eu gostava dele na alma dos olhos, gostava_ da banda de fora de mim.”

“Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a idéia da gente não dá pra se entender_ e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era pra se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento(...) E digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele...”

“Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo.”

Terminei de ler “Grande Sertão: Veredas”...
D-E-F-I-N-I-T-I-V-A-M-E-N-T-E O MELHOR! Clarice que me perdoe...
E faz muito calor nessa cidade, Meu Deus. Segunda-feira abafada, preguiça de tudo dá na gente, só vontade de banho frio,de andar nua pelos cômodos, de qualquer vento generoso fazendo voar a papelada pela casa.Até abraçar tá difícil.O Sertão moço, tá mesmo é dentro da gente.E que a semana tenha lá suas sombras e algumas frescurinhas de água pra gente achar bom.Porque tudo que é demais faz efeito contrário...E contraria.
Vamos que vamos, que tem mais 4 dias úteis pra gente usar a criatividade e enfeitar a rotina com novidades...Eu, por exemplo, vou mudar o cardápio...E haja melancia pra essa sede toda.
Sorte pra todos.E muito fôlego.E o carnaval tá chegando.Vai ser lindo.

sábado, fevereiro 04, 2006

Azul Miró...


Hoje o dia amanheceu i-n-t-e-n-s-a-m-e-n-t-e.
Um azul Miró, doce e completamente destituído de hostilidade
inundava as retinas, mas a paisagem tinha uma nitidez tão violenta que fiquei cansada e muda à espera de que algo explodisse barulhento dentro do meu assombro que era largo e arrasador.
Não sei explicar,mas hoje foi um daqueles dias em que as coisas aconteceram com uma simplicidade dolorosa: estava tudo tão ao alcance das mãos que o coração recuava assustado com a facilidade que se tinha de tocar nas coisas, de interagir com tudo; a brisa era palpável, a água do mar arregaçava seu ventre salgado convidando pro mergulho, o sol rasgava a atmosfera encharcando a natureza de dourados.Tudo violentamente vivo e óbvio, mas com a suavidade da espuma que chega cobrindo os pés depois que a onda quebrou lá longe ...

Não saberei explicar...Algumas sensações não podem ser desnudadas só com palavras que cabem na boca.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

SEXTA-FEIRA



RESPOSTA AO ANJO GABRIEL

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua

(Iracema Macedo)


A semana pingou devagar na minha ansiedade por outras cores, mas eis que, finalmente, amanheceu uma sexta-feira de sol. E eu me preparo e enfeito toda pra beber a claridade do dia com a pele (como dizia Clarice),pra manchar os olhos de paisagem, inundar os poros e os pêlos com água salgada,pra debruçar sobre o tempo,pra perder o fôlego,pra lamber os dedos de prazer...
Porque nas sextas-feiras eu não aceito nada menos que TODAS AS DELÍCIAS.

Um final-de-semana inspirador, cheio de surpresas e agradáveis começos...
TUDO DE BOM SEMPRE ( e se puderem, façam yoga e desliguem a TV e vão ler um livro. E ainda: usem protetor e preservativo...)

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Sem Inspiração...



Como um bala
Desembrulhada
Pelo vento
Fui engolida
Pelo silêncio...
*
*
*

"(...) Estendeu em grande apelo os braços para o desejo de um mar noturno, cujo rumor desenrolaria enfim a espessura que existe no silêncio..."

(Clarice Lispector- "A Maça no Escuro")