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quinta-feira, setembro 07, 2006

Porque dói nela.



Foto: Paulo Medeiros

"O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano."

Mia Couto

Ela quer saber o que fazer pra parar a dor. Eu não sei. Sei que a mesma chuva que alaga é a que fertiliza poemas, que desata os choros, que prolonga aquele encontro ou o impede. A mesma chuva que me torna introspectiva e preguiçosa é a que enche minhas pétalas de gotinhas tão perfeitas que nutre uma sede absurda que nasci tendo. E quando faz sol, eu me amplio toda e fico ali, crestando, me retorcendo de prazer ouvindo aquele barulhinho delicado e sutil da umidade se ausentando. E deixo, deixo mesmo que a luz entre e transborde o meu solzinho interno, aquele do meu plexo perto do coração, pra que meu olhar se encha de faisquinhas de vida novamente, de mais fome de tudo.

Quando dói em mim, eu deixo. Deixo doer até a última gotinha de água salgada. Depois ela se vai. A dor não quer outra coisa que não seja exercer sua função: doer. E não é banalizando, embotando as emoções que ela vai deixar de surgir de tempos em tempos. Não sei como dói em você, mas por saber como dói a minha dor eu imagino a sua: de tão abstrata incomoda fisicamente, de tão ignorada ela se humaniza...em nós. No que eram laços.

Deixe doer o que for honesto.Deixe alagar seus olhos de chuva, escorrer pelo seu rosto e traçar caminhos sinuosos ou retas perfeitas como fazem os rios. A dor só quer te lembrar que há vida naquilo que você rejeitou porque compunha um outro extremo do que imaginamos ser a felicidade. Ela quer que você adquira sabedoria experimentando a totalidade...

(Acho que o que mais dói na dor, é porque ela nos deixa tristes).

Marla de Queiroz

11 comentários:

Bela Caleidoscopica disse...

Marlarida-amada-flor,
eu senti tão 'pra mim' esse texto, amore! É que eu tenho mesmo tempos de invernada, de hibernação. Tempos de muda.
Eu tenho tantas lágrimas quanto gargalhadas. E o que me dói mais na dor é ela me fazer tão meiseravelmente só, tão comumente universal e abandonada à minha própria sorte ao mesmo tempo.
Sinto como se fosse possível ser plenamente compreendida, mas jamais acompanhada. Mas a dor depois dos 30 tem a vantagem de já ser um terreno conhecido, íntimo, por onde tantas vezes eu passo e saio, Graças a Deus!
Porque pra além da familiaridade da dor, minha maior força é o amor, por mim, por tudo, por esse mundo doido e por vocês, meus amigos, minhas flores sempre em botão, prontas pra desabrochar ao meu menor gesto, em puro amor.
Merci beaucoup, ma cherrie!
Beijos Beijos Beijos de puro encantamento

Ju disse...

Quando eu conhecer vc vou abraça-la tanto até doer, mas aquela dorzinha boa que nos dá vontade de abraçar a vida de tão boa q é.

Vc é linda demais. Umas das pessoas mais belas que já tive o prazer de conhecer, sim conhecer. Já a sinto assim tão perto e tão minha q ouso chamar de amiga.

Fique com Deus!

Beijos

PS. Pra não perder o costume vou roubar a citação do Mia :)

Mendoscopia disse...

Vima aqui agradecer seu comentário. Lindo d+, carinho d+, merecia resposta... Aí encontro esse texto. Nossa!! Como falar em ser único e não incluí-la nesse contexto?

E terminaria dizendo que eu "acho que o que mais dói na dor, é porque" nos prendemos a ela, damos demasiado valor àquele sentimento que nos tira o eixo e nos faz sentir sentimentos contrários, confusos aos nossos.

Obrigada por tudo.

bjos,

Húmus Wufus II disse...

A escrita, ao contrário do que muitos pensam, é nossa inimiga.

Anônimo disse...

Ju - Brasília
Vc é linda demais pra ficar triste, deixe q chegue, deixe q passe...
Bjos e um fds ensolarado!

Rayanne disse...
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Rayanne disse...

"Morro de saudade e a culpa é sua..."

Ah, Marlinha flor.

Tempos difíceis se aproximam por aqui. Trabalho, tanto uma paixão quanto um vício. Trabalho por amor. Trabalho por fé. E uma teimosia tremenda. Meu trabalho é ser Dom Quixote quando os outros são moinhos. Meu trabalho é ser silêncio onde tudo grita. Meu trabalho é ser palavra vermelha onde tudo cala.
Aí eu enconsto as pupilas na doçura vibrante das tuas palavras ou vejo a imagem do teu riso aberto. Que de você eu quero aprender essa alegria de vida e a fé no sol-riso mesmo quando tudo escurece.
E desabroche a vida numa flor de incontáveis versos, incandescendo verbo na mudez que corre contra meu tempo.

**Uma estrela prá lembrança sua**

Carol Velho disse...

Estou doendo de saudades de ti!
Beijocas

amo-te

diovvani disse...

Oi menina, tudo bem? Por tudo que li e senti (também os textos abaixo), no que escreveu aqui em sua casa, é mais certo que sim. Sabe, nas últimas semanas tenho descoberto vários novos amigos virtuais, que alem de escreverem super bem, ainda agregam uma “energia” boa, naquilo que escrevem. Cheguei aqui, através do blog da Rayane que é uma dessas descobertas como você. Gostei por demais de tudo. MontanhosoAbraçoDasMinasGerais.

Frabinha disse...

Ah minha linda... :)
Plenitude, sentir o corre das próprias veias, só mesmo na dor e no gozo...
Um existencialista o outro inquestionável...
Minha admiração, pq beijo as vezes dou sem ela... ;)

Bruna Paredes disse...

"...Mas, pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não(...)
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza, tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança:
A de um dia não ser mais triste não..."
não é que já disseram isso???..um super beijo pra vc e outro para os saudosos Baden e Vinicius